sábado, 4 de abril de 2020

Por que o coronavírus é mais perigoso para os idosos

A maneira como o sistema imunológico envelhece é a razão pela qual o vírus é perigoso especialmente para quem tem mais de 70 anos



A pandemia de coronavírus que se expande rapidamente afeta com gravidade os idosos. Dados obtidos a partir do surto inicial na China e mais tarde na Itália mostram que os infectados com menos de 60 anos têm um risco baixo, embora não seja nulo, de morrer de Covid-19. Curiosamente, as crianças pequenas não parecem estar em maior risco de complicações graves da doença causada por esse novo coronavírus, em contraste com o que ocorre com outros vírus, como a gripe sazonal.

No entanto, as estatísticas se tornam mais desalentadoras à medida que os pacientes envelhecem. Enquanto pacientes entre 60-70 anos têm uma probabilidade de 0,4% de morrer, aqueles com idades entre 70 e 80 anos têm 1,3% e os com mais de 80 anos, de 3,6%. Embora isso não pareça uma probabilidade muito alta de morte, no atual surto que a Itália está enfrentando, 83% dos que sucumbiram à infecção pela Covid-19 tinham mais de 60 anos de idade.

Portanto, o novo coronavírus SARS-CoV-2, que causa a Covid-19, é um patógeno muito sério para quem tem mais de 60 anos de idade. Enquanto continua a se espalhar, esse grupo mais velho continuará correndo o risco de ficar gravemente doente e morrer.

O que faz com que um vírus como este representem maior risco para os idosos? Acredita-se que seja devido a alterações sofridas pelo sistema imunológico humano à medida que envelhece.
As ferramentas do corpo para combater infecções

Na vida cotidiana, o corpo experimenta um bombardeio constante de bactérias, fungos e vírus que nos tornam doentes, os patógenos. Um corpo humano é um lugar maravilhoso para esses organismos crescerem e prosperarem, pois lhes proporciona um ambiente agradável, quente e rico em nutrientes.

É aí que o sistema imunológico entra em ação. É o sistema de defesa do corpo contra esse tipo de invasor. Antes mesmo de nascer, o corpo começa a produzir dois tipos especializados de células sanguíneas, linfócitos B e linfócitos T, capazes de reconhecer os patógenos e ajudar a bloquear seu crescimento.

Durante uma infecção, os linfócitos B podem se multiplicar e produzir anticorpos que aderem aos patógenos e bloqueiam sua capacidade de se espalhar pelo corpo. A função dos linfócitos T é reconhecer as células infectadas e matá-las. Juntos, eles formam o que os cientistas chamam de sistema imunológico “adaptativo”.

É possível que o seu médico tenha pedido alguns exames para verificar os níveis dos seus glóbulos brancos. Servem para medir se você tem mais linfócitos B e T do que o habitual, provavelmente porque eles estão lutando contra uma infecção.

Pessoas muito jovens não têm muitos linfócitos B ou T. Para o corpo delas pode ser um desafio controlar a infecção porque ele simplesmente não está acostumado com tal tarefa. À medida que amadurece, o sistema imunológico adaptativo aprende a reconhecer os patógenos e a lidar com essas invasões constantes, nos permitindo combater a infecção de maneira rápida e eficaz.

Embora os glóbulos brancos sejam poderosos protetores para os seres humanos, não são suficientes. Por sorte, nosso sistema imunológico possui outra camada, denominada resposta imunológica “inata”. Todas as células têm seu próprio sistema imunológico em miniatura que lhes permite responder diretamente aos patógenos com mais rapidez do que a necessária para mobilizar a resposta adaptativa.

A resposta imune inata está pronta para se lançar sobre tipos de moléculas que são comumente encontradas em bactérias e vírus, mas não nas células humanas. Quando uma célula detecta essas moléculas invasoras, desencadeia a produção de interferon, uma proteína antiviral. O interferon provoca a morte da célula infectada, limitando a infecção.

Outras células imunológicas inatas, chamadas monócitos, agem como uma espécie de porteiro celular, livrando-se de todas as células infectadas que encontram e enviando sinais à resposta imune adaptativa para que se ponha em marcha. O sistema imunológico inato e o adaptativo podem funcionar em conjunto como uma máquina bem lubrificada para detectar e eliminar patógenos.
Os sistemas imunológicos mais velhos são mais fracos

Quando um patógeno invade o corpo, a diferença entre a doença e a saúde se torna uma corrida entre a velocidade em que tal patógeno é capaz de se expandir em seu interior e a rapidez com a qual a resposta imunológica é capaz de reagir sem causar muitos danos colaterais.

À medida que envelhecemos, as respostas do sistema imunológico inato e do adaptativo mudam, alterando esse equilíbrio. Os monócitos dos indivíduos mais velhos produzem menos interferon em resposta à infecção viral. É mais difícil para eles matar as células infectadas e transmitir sinais à resposta imune adaptativa para que se ponha em marcha.

A inflamação crônica de baixo grau que comumente ocorre durante o envelhecimento também prejudica a capacidade da resposta imune adaptativa e inata de reagir contra os patógenos. É um pouco semelhante a se acostumar, com o passar do tempo, a ruídos irritantes.

Com o envelhecimento, a redução da “capacidade de atenção" da resposta imune inata e da adaptativa torna mais difícil que o corpo responda à infecção viral, dando vantagem ao vírus. Os vírus podem tirar proveito do atraso do sistema imunológico em responder e, assim, se apoderar rapidamente do corpo, causando uma doença grave e a morte.
O distanciamento social é vital para as pessoas vulneráveis

Dada a dificuldade que os idosos têm para controlar a infecção viral, a melhor opção é, desde o início, evitar ser infectados. E é aí que a ideia de distanciamento social adquire importância, em especial no que diz respeito à Covid-19.

A Covid-19 é causada por um vírus respiratório que contagia principalmente pela tosse, que pode espalhar pequenas gotas de saliva que contêm vírus. As gotículas mais pesadas caem rapidamente no chão. Gotas muito pequenas secam. Gotas de tamanho intermediário são as mais preocupantes, porque conseguem flutuar no ar mais de um metro antes de secarem. Essas gotas podem ser inaladas e entrar nos pulmões.

Manter uma distância de pelo menos um metro e meio de outras pessoas ajuda a reduzir significativamente o risco de ser infectado por essas gotículas de aerossóis. Mas ainda existe a possibilidade de o vírus contaminar as superfícies em que a pessoa infectada tocou ou na qual tossiu. Consequentemente, a melhor maneira de proteger idosos vulneráveis ​​e as pessoas imunocomprometidas é ficar longe delas até que o risco desapareça.

Brian Geiss é professor associado de microbiologia, imunologia e patologia na Universidade Estadual do Colorado e recebe financiamento do National Institutes of Health.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês na The Conversation.

Reprodução: EL PAIS
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quarta-feira, 1 de abril de 2020

Coronavírus: o que a Ciência diz sobre o uso da cloroquina contra a covid-19


O governo brasileiro vai distribuir cloroquina, um fármaco hoje usado no tratamento de doenças como malária e lúpus, para que seja usado em pacientes graves com covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus.

O medicamento vem gerando dúvidas e suscitando debate desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendeu no Twitter a liberação do remédio pelos órgãos de saúde pública para tentar conter a epidemia no país e que o presidente Jair Bolsonaro anunciou que o laboratório do Exército passaria a produzir o medicamento no Brasil.

Mas o medicamento pode ser eficaz contra a covid-19?

Médicos e especialistas consultados pela BBC News Brasil ressaltam que não existem evidências científicas de que o medicamento seja eficaz no tratamento.

Na coletiva de imprensa em que anunciou a distribuição da cloroquina para hospitais pelo país, o secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, afirmou que pesquisas laboratoriais feitos até agora mostraram bons resultados contra o novo coronavírus.

Isso significa que o medicamento foi testado com sucesso em laboratório, em cultura de células - o primeiro degrau de um longo processo para se desenvolver um medicamento.

Longe de conclusão

Passada essa primeira fase, há pelo menos outras três: testes em camundongos, estudos em animais não roedores, como cães e macacos e, finalmente, estudos em humanos.

Os testes em humanos, por sua vez, se subdividem em outras etapas, até chegarem ao estudo clínico randomizado controlado - RCT, na sigla em inglês -, quando se sabe sobre o nível de toxicidade do remédio para o corpo, sua eventual interação com outros medicamentos, seus efeitos colaterais.

No caso do uso da cloroquina para tratar covid-19, a única sinalização positiva que se tem é o estudo em vitro, em cultura de células.

Apesar de ele já ser um medicamento comercializado no mercado, é usado no tratamento de outras doenças e, por isso, precisaria ser amplamente testado em humanos para se avaliar sua eficácia contra o novo coronavírus e seus eventuais riscos a esses pacientes.

No estudo in vitro, pesquisadores chineses avaliaram o efeito antiviral da cloroquina e da hidroxicloroquina e verificaram que os medicamentos inibiram a tanto a etapa de entrada do vírus na célula quanto estágios celulares posteriores relacionados à infecção pelo novo coronavírus.

Houve bloqueio, por exemplo do transporte do vírus entre organelas das células, os endossomos e endolisossomos, que, segundo uma nota técnica divulgada pela Anvisa, parece ser a etapa determinante para a liberação do genoma viral nas células.

Fora do ambiente laboratorial, não existe um estudo clínico que aponte que o remédio funcione de fato em pacientes com covid-19 ou que seja seguro para essas pessoas.

Trump e o estudo francês

Donald Trump, chegou a dizer que o uso da hidroxicloroquina combinada com um antibiótico chamado azitromicina poderia "mudar o jogo" no momento atual da pandemia.

A fala gerou uma corrida às farmácias tanto nos EUA quanto no Brasil, e faltou o medicamento para quem precisava, pessoas que fazem tratamento de lúpus e malária, por exemplo.

Essa situação levou inclusive a Anvisa a restringir a venda e passar a exigir prescrição médica para que ele fosse comercializado.

Nos EUA, um homem morreu e sua mulher foi internada em estado grave após ingerirem a cloroquina como "prevenção".

Estudo de má qualidade

Em seu comentário, o presidente americano se referia a um estudo francês, o primeiro realizado com seres humanos, e que tem sido duramente criticado pela comunidade científica.

"A qualidade metodológica é tão ruim que ele não pode nem ser usado como referência", diz o médico cardiologista Luis Correia, professor adjunto da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

Além de a amostra ser pequena, de apenas 36 pacientes, diz Natalia Pasternak, diretora do Instituto Questão Ciência, ele não segue uma série de critérios estatísticos importantes na pesquisa científica: a amostra, por exemplo, não é randomizada - ou seja, os pacientes não são escolhidos aleatoriamente para evitar que haja um viés de confirmação.

O fato de a hidroxicloroquina ser combinada com outro medicamento é outro problema, porque, dessa forma, não se sabe sobre o efeito do medicamento em si.

Pasternak destaca ainda que não tem se dado a devida atenção a um dado importante. Da amostra de 36 pacientes, 6 foram excluídos do estudo porque, do total, 3 foram parar na UTI, um morreu, outro resolveu abandonar o tratamento por causa dos efeitos colaterais, porque estava sentindo muita náusea, e outro decidiu deixar o hospital.

Em um momento de pandemia como o atual, em que os cientistas estão correndo contra o tempo para tentar desenvolver um tratamento e salvar o máximo possível de vidas, é compreensível que em alguns casos se decida não ter o rigor de pesquisa que se tem em tempos normais, diz Pasternak, mas isso não é desculpa para se fazer o que na visão dela é um trabalho ruim.

Um contraexemplo nesse sentido citado por ela é um estudo também recente, deste mês de março, realizado na China com 30 pacientes e que usou, por exemplo, a randomização para selecionar a amostra.

O resultado, noticiado pela agência Bloomberg, não mostrou diferença entre o tratamento convencional para pacientes com covid-19 e aqueles que foram submetidos à hidroxicloroquina.

Este último é uma variante considerada mais segura da cloroquina. Ainda assim, o uso desse medicamento pode causar uma série de efeitos colaterais, entre eles cegueira, problemas no coração e no fígado.

A liberação para uso no Brasil

O protocolo para uso do fármaco no Brasil restringe sua utilização para pacientes graves internados em hospitais. O tratamento deve acontecer por cinco dias, sob supervisão médica. O Ministério da Saúde anunciou a distribuição de 3,4 milhões de unidades do medicamento para os Estados.

Uma nota técnica da Anvisa publicada antes da liberação pontuava que o sucesso dos estudos pré-clínicos com o uso do medicamento justificava a pesquisa clínica em pacientes com covid-19. Nesse sentido, a agência destacava que dados de segurança e dados de ensaios clínicos de maior qualidade eram, portanto, urgentemente necessários.

"A Anvisa reforça que, para a inclusão de indicações terapêuticas novas em medicamentos, é necessário conduzir estudos clínicos em uma amostra representativa de seres humanos, demonstrando a segurança e a eficácia para o uso pretendido", encerra o texto.

Para Pasternak, a liberação da cloroquina e da hidroxicloroquina no Brasil aconteceu de forma prematura e irresponsável, já que, além de não haver evidências científicas concretas de que ele funcione, será usado em pacientes graves, possivelmente com alguma comorbidade - como diabetes e cardiopatias -, e que podem sofrer efeitos adversos significativos.

Para Luis Correia, que é também diretor do Centro de Medicina Baseada em Evidências, "a distração com pseudonovidades traz o risco da perda de foco na alta performance em momentos críticos: o desafio da qualidade assistencial."

Ele acrescenta ainda que não se trataria de um "tudo ou nada" - ou se usa o medicamento ou se deixa as pessoas morrerem.

Já existe um protocolo médico em casos graves de covid-19, com uso de respiradores e o controle de congestão pulmonar.

O Brasil tem registrado casos de pacientes internados em UTIs que conseguiram se recuperar quando submetidos a esses procedimentos.

Assim como, nos últimos dias, de pacientes que foram submetidos à cloroquina e também saíram de quadros mais severos.

Cientistas de todo o mundo seguem testando o medicamento

Estudo global

Existe hoje um esforço internacional para testar se o medicamento é de fato eficiente e seguro contra o novo coronavírus.

A cloroquina e sua variante estão entre os quatro fármacos que estão sendo estudados em uma iniciativa lançada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) batizada de Solidariedade.

Além dela, os cientistas também estão estudando a viabilidade de uso de um medicamento concebido para tratar o ebola, que não se mostrou eficaz contra a doença mas tem tido bom desempenho contra covid-19 em testes laboratoriais; uma combinação de dois remédios usados no tratamento de HIV, ritonavir e lopinavir; e uma combinação entre esses dois e o interferon-beta, um fármaco que ajuda a controlar inflamações e se mostrou eficaz em animais infectados por outro coronavírus, o que causa a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers).

No Brasil, foi lançado recentemente o Projeto Coalizão Covid Brasil, liderado pelos hospitais Albert Einstein, Sírio Libanês e HCor, além da Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva, para, entre outros objetivos, realizar testes clínicos com a cloroquina e a hidroxicloroquina.

A ideia é realizar testes em 70 hospitais pelo país em mais ou menos mil pessoas com diferentes quadros: dos leves aos mais graves, inclusive aqueles que estão na UTI.

A pesquisa deve durar entre dois e três meses.

Reprodução: BCC
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terça-feira, 24 de março de 2020

O sangue azul de caranguejo que salva milhões de vidas todos os anos

A maioria das pessoas no mundo não sabe que sua saúde pode depender de um caranguejo de sangue azul de aparência estranha.



Os caranguejos-ferradura são uma das criaturas mais antigas do mundo — sobreviveram aos dinossauros e acredita-se que estejam no planeta há pelo menos 450 milhões de anos.

Os do Atlântico podem ser vistos desde a primavera até os picos da estação de desova, em maio e junho, na maré alta durante a lua cheia ou nova.

Temos sorte de que esses "fósseis vivos", encontrados nos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico, ainda estejam por aí, pois eles já salvaram milhões de vidas.
Colheita de sangue

Os cientistas têm extraído o sangue azul da ferradura desde os anos 1970, para testar se equipamentos médicos e medicamentos intravenosos são estéreis para uso.

A presença de bactérias nocivas no equipamento pode matar, mas o sangue do caranguejo-ferradura é hipersensível a toxinas bacterianas.

Ele é usado para testar a contaminação durante a fabricação de qualquer coisa que possa entrar no corpo humano, desde vacinas e gotas intravenosas a dispositivos médicos implantados.
Grande negócio

Todos os anos, cerca de meio milhão de caranguejos-ferradura do Atlântico são capturados para uso biomédico, de acordo com a Comissão de Pesca Marinha dos Estados do Atlântico.

O sangue na ferradura é um dos líquidos mais caros do mundo.

Um litro de sangue azul pode ser vendido por até US$ 15 mil (cerca de R$ 69 mil, na cotação atual).



Por que sangue azul?


A cor azul vem do cobre presente no sangue do animal — no sangue humano, os átomos de ferro desempenham a mesma função, gerando a cor vermelha.

Mas não é a cor do sangue do caranguejo-ferradura que interessa aos cientistas.

Além do cobre, o sangue contém um produto químico especial que retém as bactérias por meio da coagulação.

Ele pode detectar a presença de bactérias, mesmo em quantidades extremamente baixas, e o agente de coagulação é usado para fazer os testes — o teste Limulus Amebocyte Lysate (LAL) das espécies americanas, e o teste Tachypleus Amebocyte Lysate (TAL) das espécies asiáticas.

O que acontece com os caranguejos depois?

Uma vez que suas conchas são perfuradas perto do coração, cerca de 30% do sangue é colhido.

Depois, os caranguejos são devolvidos à natureza.

Mas estudos mostram que entre 10% e 30% morrem nesse processo, e as fêmeas sobreviventes têm mais dificuldade para procriar.
Existe alternativa?

Atualmente, existem quatro espécies de caranguejos-ferradura no mundo.

Todos as quatro estão ameaçadas por causa do excesso de pesca para uso na indústria biomédica e como isca de peixe, mas também devido à poluição.

Os cientistas argumentam que a demanda por testes LAL e TAL deve aumentar à medida que a população global aumenta e as pessoas vivem por mais tempo.

Movimentos conservacionistas reivindicam testes sintéticos como uma abordagem mais ética para detectar toxinas, mas as empresas farmacêuticas dizem que alternativas sintéticas devem provar que podem detectar toxinas no mundo real, não apenas as cepas fabricadas e usadas até agora em seus testes.


Reprodução: BBC
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quinta-feira, 19 de março de 2020

Coronavírus pode infectar a mesma pessoa duas vezes? A pergunta que intriga cientistas

Virologista espanhol estima que pelo menos 14% dos pacientes que já tiveram coronavírus voltaram a ter resultado positivo para a doença; mas será que se trata de uma nova infecção ou apenas uma 'recuperação' do vírus?



Depois de ser diagnosticado com Covid-19 em fevereiro, passar dias internado em um hospital de Tóquio e se recuperar, um homem japonês de cerca de 70 anos finalmente retornou à vida normal — usando transporte público, por exemplo.

Mas, depois de alguns dias de alta, veio uma febre. O idoso voltou ao hospital e, para a surpresa dele e dos médicos, fez um novo teste para o coronavírus que deu positivo.

O caso, reportado pela NHK, empresa pública de comunicação, alertou cientistas porque, até agora, muitos acreditavam que uma pessoa não podia ser infectada com o novo coronavírus duas vezes — pelo menos a curto prazo.

Alguns países, como o Reino Unido, chegaram a basear sua estratégia inicial de combate à pandemia no princípio da "imunidade do rebanho" — que considera um cenário em que grande parte da população se tornaria imune após contrair a doença.

Mas, com o surgimento de casos como o do homem japonês, esse princípio foi posto em dúvida.

Agora, a comunidade científica busca responder à pergunta: quão verdadeira é a possibilidade de que o corpo gere imunidade depois de contrair a doença?

Nova infecção ou recuperação do vírus?

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) disse à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) que "como se trata de um novo vírus, e sobre o qual ainda aprendemos mais todos os dias, no momento, não podemos dizer com certeza absoluta que uma pessoa infectada com o vírus não pode se infectar novamente."

Uma opinião semelhante é defendida pelo virologista espanhol Luis Enjuanes, que afirma haver "uma porcentagem de pacientes, de pelo menos 14%, que, depois de terem testado negativo, retornaram ao positivo".

No entanto, em conversa com a BBC News Mundo, o pesquisador do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), a principal instituição de pesquisas científicas da Espanha, disse que esses casos podem estar ligados a uma "recuperação" do vírus, em vez de uma nova infecção.

"Minha explicação, entre várias possíveis, é que, em geral, esse coronavírus imuniza a população, mas talvez a resposta imune (do corpo) não seja muito forte."

"Então, quando essa resposta imunológica diminui, o vírus, que fica em algum reservatório do corpo, reaparece", explica ele.

Para entender melhor a hipótese de Enjuanes — que é um dos virologistas que mais estudou a Covid-19 na Espanha —, é importante saber que existem vírus que permanecem no corpo por três meses ou mais.

"O padrão é que uma pessoa infectada teria de se tornar 0 positiva, ou seja, gerar imunidade. E que, com a imunidade, o vírus não deveria ressurgir, mas o agente infeccioso pode ficar em tecidos especiais — que não estão tão expostos à defesa (pelo organismo) como outros órgãos", explica.

Vários tipos de imunidade

A extensão da imunidade varia de acordo com cada doença.

Para o sarampo, por exemplo, basta uma vacinação quando criança para se ter imunidade por toda a vida.

No entanto, existem outros vírus para os quais as vacinas não são tão eficazes. Portanto, é preciso aplicar doses com uma certa periodicidade.

E há outros casos em que, à medida que o vírus sofre mutações, novas vacinas devem ser aplicadas todos os anos — a para gripe é uma delas.

Especialista neste tipo de doença, o pesquisador Isidoro Martínez estranhou a velocidade da reinfecção no caso do paciente japonês e de outros.

"O que normalmente acontece é que, sem a imunidade duradoura, dentro de um ou dois anos, em novas epidemias, você será infectado novamente. Isso é normal", disse Martínez à BBC News Mundo.

"Mas é raro uma pessoa ser reinfectada com o mesmo vírus logo após ser curada. Além disso, devemos ter em mente que, até onde sabemos, esse coronavírus não muda tanto quanto o vírus influenza (da gripe)", acrescenta.

Dessa forma, Martínez se inclina para uma hipótese semelhante à de Luis Enjuanes.

"Possivelmente, o que está acontecendo no caso da Covid-19 é que as pessoas que testam positivo depois de um resultado negativo são vítimas de um retorno temporário da infecção, até que seja definitivamente eliminada", diz ele.

No entanto, o cientista destaca que ainda há muito que estudar sobre a Covid-19 e que não há certeza de que uma segunda infecção realmente seja improvável.

São respostas pendentes que poderão ser chave no planejamento de políticas de saúde contra um vírus que está afetando o mundo inteiro.

Reprodução: G1
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terça-feira, 17 de março de 2020

Uso de luvas protege contra o coronavírus?

Infectologista explica que a prática ideal é lavar as mãos corretamente. Luva pode concentrar vírus por mais tempo que a pele.



A principal forma de evitar a contaminação pelo coronavírus é higienizar corretamente as mãos - seja com água e sabão, seguindo as etapas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), seja com álcool gel. Surge, então, a dúvida: o uso de luvas plásticas pode nos proteger da doença? O infectologista Renato Grinbaum, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explica que seria uma prática prejudicial.

Se a pessoa, usando as luvas, encostar em uma superfície contaminada e, em seguida, levar a mão aos olhos, à boca ou ao interior do nariz, entrará em contato com o vírus da mesma forma.

“Ninguém tem o hábito de lavar as luvas. Além disso, o plástico vai concentrar a secreção por mais tempo que a pele. Não faz sentido algum”, afirma Grinbaum. Sem contar que as luvas têm um custo

Reprodução: G1
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terça-feira, 10 de março de 2020

Um jardim cultivado por estudantes para salvar beija-flores

Projeto acadêmico no México promove a criação de jardins com flores para permitir a sobrevivência do colibri na capital do país



Um pequeno jardim emerge em meio a uma selva de concreto em Iztapalapa, na zona leste da Cidade do México. Entre o asfalto das vias expressas, uma árvore solitária dá as boas-vindas ao Instituto de Ensino Médio Superior da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Lá, aparece a menor ave do planeta batendo suas asas 200 vezes por segundo. Mantém-se suspensa no ar, voa para trás como nenhuma outra e introduz seu longo bico em um mirto vermelho (um arbusto com bagos) para extrair o néctar que está cada dia mais difícil de obter na megalópole.

Blanca Prado é professora de Biologia nesta instituição. Como achava muito difícil sensibilizar os alunos sobre temas ambientais em uma das regiões mais grosseiramente urbanizadas da cidade, decidiu criar um jardim com flores para atrair beija-flores (também chamados de colibris). Um espaço pequeno, com um bebedouro e algumas jardineiras onde crescem mirtos, lavandas e brincos-de-princesa.

“Falar das problemáticas de uma espécie não torna os estudantes conscientes a seu respeito. Mas quando eles têm o beija-flor por perto, e este se apresenta com todas as suas cores, desperta o interesse deles e não dá outra: cuidam deles”, conta Prado no seu oásis particular. Desde que o iniciou, em 2016, outros professores quiseram dar suas aulas por nessa área, onde agora também acontecem as atividades de desenho e de colibriterapia, uma iniciativa voltada a estudantes com depressão.

O jardim é parte de um projeto da doutora em Ecologia María del Coro Arizmendi para permitir a sobrevivência destas aves na capital mexicana. “Na Cidade do México já tiramos todo o recurso dos polinizadores, mas se conseguirmos ter um pouco de recursos eles vão ficar”, diz Arizmendi. Até agora, ela já criou uma dezena de jardins e conseguiu que mais de cem pessoas façam seus próprios refúgios, graças a um site onde explica que flores eles preferem e como fazer néctar para os bebedouros.

A ideia surgiu há cinco anos em Washington, durante uma reunião da Campanha Norte-Americana para a Proteção dos Polinizadores (NAPPC, na sigla em inglês). Um colega lhe falou do jardim que a então primeira-dama Michelle Obama havia criado na Casa Branca para conservar abelhas, beija-flores e outros polinizadores.

“Aí me disseram: ‘Por que você não faz o mesmo no México? Vocês têm Los Pinos [antiga casa presidencial]’. Eu ri e disse iam me tachar de louca, mas decidi começar propondo isso na UNAM.” Plantou 25 arbustos em um canto da Universidade, e foi um sucesso. “Os beija-flores começaram a chegar, outras faculdades se interessaram, e a ideia começou a crescer.” Seu objetivo agora é criar um corredor de jardins que também forneça alimento às espécies migratórias que cruzam a Cidade do México em seu caminho para o sul.

O colibri vive exclusivamente no continente americano. Só no México podem ser encontradas 58 espécies que ajudam a polinizar mais de 1.300 espécies silvestres, como o abacaxi, o feijão ou diferentes variedades de banana. “Acabar com os polinizadores nos fará acabar conosco”, diz. E, para evitar isso, Arizmendi tem uma solução simples: plantar flores.


Reprodução: EL PAÍS
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quinta-feira, 5 de março de 2020

Pesquisa da USP de Piracicaba mostra que uso de bactéria eleva produtividade de cana-de-açúcar

Mais sustentável, alternativa também é mais barata para a indústria sucroenergética, uma vez que o gasto seria menor do que com fertilizante fosfatado, obtido em processo químico.



Uma pesquisa realizada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba (SP), concluiu que o uso de bactérias no solo aumenta a produtividade da cana-de-açúcar.

Mais sustentável, a alternativa também é mais barata para a produção na indústria sucroenergética, uma vez que o gasto seria menor do que com fertilizante fosfatado, obtido em processo químico.

A adição de composto e bactérias no solo resultou em um acréscimo de 20 toneladas por hectare no cultivo da cana-de-açúcar.

A união dessas técnicas é considerada ecologicamente sustentável porque com o uso dos microrganismos e da compostagem consegue-se ganhos biológicos e reduz-se o uso de fertilizante.

“É uma das alternativas sustentáveis para um aproveitamento mais eficiente do fósforo, principalmente por que este nutriente exibe uma dinâmica peculiar em nossos solos”, explica o engenheiro agrônomo Antonio Marcos Miranda Silva, integrante do projeto e aluno de doutorado na instituição.

Segundo o pesquisador, a fonte da maior parte dos fertilizantes fosfatados é de origem não renovável, ou seja, pode acabar.

Além disso, o fertilizante fosfatado que rotineiramente é utilizado na agricultura é oriundo de rochas. “Na indústria essas rochas fosfáticas são processadas com ácidos fortes e por fim tem-se o fertilizante para uso na agricultura, ou seja, é um processo químico”, acrescenta.

Rendimento

Com o fertilizante fosfatado rotineiramente utilizado (superfosfato triplo) - 145 toneladas de cana-de-açúcar por hectare em um ano de cultivo
Adicionando somente o composto - 155 toneladas por hectare
Com composto e bactérias - 165 toneladas por hectare

O engenheiro explica que no solo existe uma comunidade microbiana, na qual fazem parte as bactérias, fungos, protozoários, vírus, arqueas e outros micro-organismos. “Nossa hipótese é que quando adicionamos bactérias e o composto orgânico (alimento dos micro-organismos) houve uma ativação de grupos microbianos, que favoreceu a esse incremento em produtividade”, avalia.

Ele ressalta que a resposta em produtividade também depende da comunidade microbiana existente no solo, que ainda não é completamente conhecida pelo homem.

O processo

Silva detalha que a compostagem é uma prática milenar na qual os micro-organismos (naturalmente presentes nos resíduos e no solo) são os responsáveis pela estabilização da matéria orgânica, o que ocasiona um melhor aproveitamento dos nutrientes se comparado com a aplicação de resíduos frescos (não submetidos a compostagem) diretamente no solo.

Na pesquisa, a compostagem foi realizada com a torta de filtro e cinzas de caldeira (resíduos orgânicos da indústria da cana).

A pesquisa seguiu por etapas como isolar bactérias da rizosfera da cana-de-açúcar, região de solo que circunda a raiz da planta, montar o experimento em casa de vegetação e inocular (introduzir na cultura pesquisada) as bactérias e o composto já obtido da compostagem.

Com os bons resultados em condições controladas, os pesquisadores realizaram o experimento em campo e observaram o aumento de produtividade.

“As bactérias já temos no solo e o alimento já é gerado durante o processo de industrialização da cana, ou seja, temos um viés totalmente sustentável e que pode ser aplicado em condições reais”, apontou.

Publicação e disponibilização em mercado

O estudo foi submetido em revistas científicas de elevado fator de impacto e também divulgado em vídeo no canal Agro Eco Ciência, que publica produções sobre pesquisas em agroecologia.

Sobre a disponibilização deste novo produto no mercado, Silva explica que requer uma série de trâmites técnicos e burocráticos. Ele explica que a legislação brasileira, por exemplo, não nos permite patentear micro-organismos, apenas o processo que estes exerçam.

“O nosso objetivo como cientistas do solo é mostrar para a indústria e aos produtores que a partir do manejo da microbiologia do solo é possível se obter incrementos produtivos e o mais importante, incremento em saúde do solo”, aponta.

A pesquisa foi desenvolvida com a orientação da professora Elke Cardoso, do Departamento de Ciência do Solo. Também fizeram parte dele os professores Godofredo Cesar Vitti e Rafael Otto, além dos pesquisadores Germán Estrada-Bonilla e Cintia Masuco Lopes.

O projeto foi financiado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Reprodução: G1
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quarta-feira, 4 de março de 2020

'Bambu elétrico': cientistas brasileiros transformam planta em substituta para fios e canos


Uma casa construída sem fios, encanamentos ou cabos. E que todos esses materiais fossem substituídos por uma única instalação: painéis de bambu.

Cientistas brasileiros desenvolveram conectores de bambu capazes de conduzir eletricidade e líquidos por meio dos microcanais da espessura de um fio de cabelo localizados na estrutura da planta. A ideia é que no futuro conjuntos desses canais sejam agrupados e aplicados na construção civil para construir paredes.

Além de baratear o imóvel, usar o bambu como matéria-prima pode tornar o processo mais simples e sustentável.

Com verba destinada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), os autores do estudo patentearam a ideia em agosto de 2019. Eles ainda publicaram um artigo sobre o assunto no Journal Material Chemistry A, da Royal Society of Chemistry, no Reino Unido.

Hoje, eles já pensam no próximo passo e estão debruçados em experimentos, na tentativa de descobrir como transmitir dados por esses microcanais naturais.

A ideia de analisar as estruturas do bambu surgiu quando o pesquisador italiano Omar Pandoli, do departamento de química da PUC Rio, fazia um pós doutorado na China há dez anos. Na época, ele conheceu o professor pioneiro em usar a planta como elemento de reforço leve e sustentável ao concreto na construção civil — no lugar do aço.

Na época, o professor pediu para que Omar tentasse preencher os microcanais internos do bambu com algum material em escala nanométrica. A intenção era aumentar a durabilidade e torná-lo mais resistente a ataques de micróbios e à própria decomposição natural.

"Ele queria preencher o bambu com algo que reforçasse a estrutura sem perder as características originais. Na época, tentei preencher com prata, que era a coisa mais barata", afirmou.

Durante os estudos, ele percebeu que o bambu, ao contrário de outras plantas estudadas, possui microcanais dispostos em linhas naturalmente isoladas. Isso possibilita que sejam transportados materiais diferentes lado a lado sem que eles entrem em contato entre si. Uma vareta de bambu seria capaz de conduzir corrente elétrica e água sem que eles tenham contato. Algo complexo e caro, ele explica, caso fosse produzido industrialmente.

Aos poucos, ele passou a fazer testes químicos nesses microcanais por onde originalmente passa a água que alimenta a planta. Nesse momento, ele identificou que a estrutura desses vasos naturais reage bem a outros elementos, inclusive com boa aderência. O estudo rendeu três artigos científicos, dois publicados em 2019 e um em 2020.

Mas, para aproveitar ao máximo a estrutura do canal, ele precisava fazer estudos em uma escala ainda menor.

Eletricidade sem fio

Em 2018, Omar saiu do Rio para dar uma palestra em Campinas (interior de São Paulo), no Laboratório Nacional de Nanotecnologia. Ele falou a outros cientistas sobre seu estudo e a intenção de explorar os microcanais do bambu e suas reações orgânicas.



Da platéia, Murilo Santhiago, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), levantou o braço e questionou. "Você já pensou em colocar materiais condutores nesses canais?". A intenção dele era saber se a estrutura seria capaz de transportar energia elétrica de uma extremidade à outra, sem a necessidade de fios.

Omar respondeu que não, mas que poderiam fazer uma parceria para testar. Os grupos uniram forças e contou com o trabalho de três estagiários para fazer todos os testes necessários para comprovar a eficácia do sistema.

Em conjunto, os cientistas conseguiram pintar as paredes dos canais do bambu de maneira individual com uma tinta condutora de eletricidade e ainda deixaram espaço para que o microcanal permanecesse oco.

No estudo, eles provaram ser possível fazer os canais do bambu formarem um circuito elétrico e fornecer energia capaz de acender um led (como no teste da imagem abaixo) ou qualquer outro dispositivo que precise de corrente elétrica.

Uma das barreiras encontradas pelos cientistas para construir futuramente painéis sem fio capazes de conduzir eletricidade, dados e até líquidos são os nós que existem nos bambus.

Cada planta pode ter até dez nós que interrompem os canais. Os cientistas agora estão trabalhando para encontrar uma maneira de ligar um bambu ao outro mantendo o fluxo dos canais. Eles disseram já ter identificado possíveis caminhos.

Os pesquisadores também conseguiram desenvolver uma maneira de esquentar e manter aquecido o líquido dentro do condutor. Com isso, é possível programá-lo para que a água entre fria de um lado e saia quente do outro ou até permaneça quente no sistema, funcionando como um aquecedor. Esse sistema também poderia ser aplicado a um chuveiro, por exemplo.

Segundo os cientistas, em casos como esses, canais poderão ser agrupados para suportar uma vazão maior. Também é possível instalar um sensor eletroquímico no canal para avaliar a qualidade da água em tempo real numa piscina ou filtro, por exemplo.

"Nós criamos uma plataforma. Tudo o que você demandar, pode ser miniaturizado. Será possível fazer uma capinha de celular condutora, objetos de decoração, iluminação e todo o tipo de circuito miniaturizado", afirmou o cientista Omar Pandoli.
Um metro por semana

De acordo com os cientistas, o Brasil possui 250 espécies de bambu e o Acre tem a maior floresta nativa de bambu do mundo. A maior vantagem é a facilidade de plantio e o rápido desenvolvimento. Algumas genéticas podem crescer até 1 metro por semana.

Os artigos publicados pelos cientistas sustentam que a alta disponibilidade da biomassa lignocelulósica do bambu permite o desenvolvimento em grande escala de uma produção industrial dos dispositivos testados.

Um dos argumentos que sustentam essa tese é que dos 9 milhões de hectares plantados de bambu na América Latina., metade está localizado no Estado do Acre. Hoje, eles afirmam que não há um plano industrial para o desenvolvimento de uma economia sustentável capaz de explorar os potenciais usos do bambu para torná-lo um material com alto valor agregado.

Apesar da abundância de bambu no Brasil, a espécie usada no estudo é de origem chinesa, conhecida popularmente como bambu gigante (Dendrocalamus giganteus). Essa cepa tem um diâmetro de até 30 centímetros, mas o mais importante para os cientistas são apenas as paredes da estrutura, onde estão concentrados de 20 a 50 microcanais.
Incêndios

Erguer casas de bambu e madeira não é novidade na construção civil. Mas usar um material altamente inflamável como condutor de eletricidade e calor é a maior preocupação dos cientistas brasileiros.

Por esse motivo, outros pesquisadores já iniciaram estudos para implantar algo que iniba a fonte de calor e evite que esses materiais possam oferecer qualquer risco de combustão.

"Temos que preservar a vida antes de qualquer coisa e o Brasil está na frente dessas pesquisas. Precisamos criar uma norma para esses materiais até que ele seja plenamente seguro, pois hoje ele se degrada e pega fogo com facilidade", afirmou Omar Pandoli.

O grupo de cientistas recebeu agora um projeto no valor de R$ 500 mil para fazer a mesma pesquisa com outras outras três espécies diferentes.

Omar diz que tem o sonho de que os dispositivos de bambu sejam usados no futuro como um elemento didático.

"Quero que ele possa servir para ensinar alunos na prática o que é uma resistência, corrente ou voltagem. Hoje, micro reatores de vidro custam até 5 mil dólares. Eu queria aproveitar o baixo custo de produção proporcionado pelo bambu para criar uma economia básica para as escolas públicas."

Reprodução: BBC
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segunda-feira, 2 de março de 2020

A surpreendente descoberta do primeiro animal que pode viver sem oxigênio

Uma equipe de cientistas descobriu um pequeno parasita multicelular que não precisa respirar.



Durante anos, os cientistas acreditaram que o oxigênio era uma das bases fundamentais para a vida animal.

E realmente é, embora existam alguns microorganismos, como bactérias, que podem viver em ambientes anaeróbicos — algo até agora impensável para organismos multicelulares.

No entanto, uma equipe de cientistas descobriu um pequeno parasita que não precisa respirar. A descoberta não apenas muda a maneira como entendemos a vida em nosso planeta, mas também pode sugerir novos caminhos para a busca por vida extraterrestre.

De acordo com um estudo publicado esta semana na revista científica americana PNAS, o Henneguya salminicola vive nos tecidos do salmão e evoluiu de tal maneira que não precisa mais de oxigênio para produzir energia em seu metabolismo.

"Nossa descoberta mostra que a respiração aeróbica, uma das vias metabólicas mais importantes, não é onipresente entre os animais", afirma uma pesquisa liderada pela Universidade de Tel Aviv.

Até agora, acreditava-se que todas as plantas e animais usavam oxigênio para gerar um combustível chamado trifosfato de adenosina (ATP), que aciona os processos celulares e ocorre nas estruturas celulares chamadas mitocôndrias.

No entanto, o estudo mostrou que esse pequeno animal com apenas 10 células perdeu suas mitocôndrias em algum momento e não baseia sua produção de energia em nenhuma das formas conhecidas até hoje entre os organismos multicelulares.

O que se sabe sobre esse organismo?

O Henneguya salminicola é um parasita minúsculo de apenas 10 células que infecta o salmão e causa cistos na musculatura esquelética do peixe.

Segundo o Departamento de Pesca dos Estados Unidos, ele é comumente encontrado no Alasca e causa uma condição chamada "doença da tapioca" ou "doença da carne com leite".

Dorothée Huchon, a principal autora do estudo, disse à imprensa americana que a descoberta veio quase por acaso, depois que eles tentaram detectar as mitocôndrias do parasita.

Mas, embora se parecessem com outros organismos semelhantes, os cientistas não conseguiam encontrar uma estrutura mitocondrial na salminicola, algo impensável até agora em organismos multicelulares.

"Nossa descoberta confirma que a adaptação a um ambiente anaeróbico não é exclusiva dos eucariotos unicelulares, mas também evoluiu para um animal parasitário multicelular", diz o estudo.

Uma das grandes questões que os cientistas têm agora é como esse organismo pode sobreviver sem oxigênio.

Uma das teses é que a salminicola perdeu suas mitocôndrias como mecanismo evolutivo, pois, vivendo no interior do salmão, se desenvolve em um ambiente carente de oxigênio.

Os cientistas especulam que, por outro lado, o parasita poderia de alguma forma absorver a energia do salmão, embora ainda não se saiba como.

Os primeiros organismos do nosso planeta começaram a desenvolver a capacidade de metabolizar o oxigênio — ou seja, respirar — há mais de 1,4 bilhão de anos.

Reprodução: G1
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