segunda-feira, 6 de maio de 2019

Filósofo muçulmano descobriu teoria de Darwin mil anos antes do naturalista inglês?


Recentemente, os meios de comunicação divulgaram, com ampla disseminação via Whatsapp, notícias de um filósofo muçulmano, al-Jāḥiẓ, que teria formulado a “teoria da evolução” mil anos antes de Darwin. Há de fato uma vasta tradição de ciência e filosofia árabes que é com muita frequência, mais do que deveria, ignorada pelo ocidente. Muito se fala da contribuição da filosofia grega para a modernidade, que de fato foi importante, mas se negligencia a enorme influência árabe sobre as universidades medievais, que tiveram papel relevante na revolução cientifica do século XVII, ou o fato histórico de que, quando os escritos gregos estavam perdidos na Europa, foram pensadores árabes que reintroduziram ideias de Aristóteles, Platão e outros pensadores da Grécia clássica.
Devemos ter cuidado, contudo, com esses relatos a respeito de precursores de ideias darwinistas, e ainda mais cuidado com teses que buscam minar originalidade do pensamento de Darwin sobre evolução. Ao longo da história das ciências, ainda mesmo no século XIX, estas descobertas têm aparecido aqui e ali. Para muitas pessoas, a forma como a ciência funciona ainda é algo difícil de compreender, assim como os argumentos e a lógica usada por Darwin. Nesse contexto, as afirmações de que existiram pessoas que foram precursores de Darwin, tendo antecipado suas ideias, ganha mais repercussão do que deveriam. Não que não sejam notícias interessantes. O problema é o sensacionalismo com que são tratadas. Frente a tais desafios, nós acreditamos muito na importância de formar cidadãos que compreendam melhor como se faz ciência, e não somente que sejam acossados por enormes quantidades de conteúdos científicos; e na importância de que se compreendam as ideias evolutivas, mesmo – e quiçá principalmente – quando alguém se propõe a criticá-las.
Considerem, primeiro, que uma teoria científica não se resume a uma ideia. Uma teoria se caracteriza por sua sistematicidade, reunindo um conjunto de ideias e afirmações de modo organizado, coordenado, de maneira a dar sentido e explicar fenômenos no mundo. A teoria de Darwin, por exemplo, não se limita à seleção natural, ou à luta pela existência, mas reúne grande número de ideias, que se conectam umas às outras. Vejamos algumas delas na lista a seguir: 1. A ideia de que ocorre evolução. 2. O compromisso de que evolução é algo a ser explicado em termos naturalistas, sem apelar a fatores sobrenaturais. 3. A ideia de que todas as espécies são aparentadas umas com as outras. 4. A proposição de que esse padrão de parentesco se dá por ancestralidade comum, que Darwin exprime metaforicamente falando numa “árvore da vida”, o que rompe com a ideia anterior de progresso numa “escada da natureza” (scala naturae). 5. A luta pela existência e a seleção natural como processos evolutivos. 6. A herança de caracteres adquiridos, que tem papel na teoria de Darwin, mas muitos insistem em associar somente com Lamarck. 7. A ideia de que características favoráveis à obtenção de recursos para sobrevivência e reprodução podem ser herdadas. 8. As relações da evolução, entendida conforme a teoria, com a explicação de grande diversidade de fenômenos biológicos – instinto, comportamento, desenvolvimento, relações entre organismos, fósseis etc. Aliás, este último ponto pode até mesmo ser considerado um dos principais fatores para a teoria darwinista ter sido largamente aceita: sua capacidade de unificar, sob o mesmo guarda-chuva teórico, uma grande quantidade de fenômenos antes explicados de maneira relativamente desarticulada.
Se examinarmos os trechos da obra de al-JāḥiẓKitāb al-Hayawān (O livro dos animais, em tradução livre), que foram reproduzidas pela mídia, teremos motivos sem dúvida para admiração. Não cabem dúvidas de que estamos diante de um grande pensador do século IX d.C. Assim, é importante que tenham clareza, não se trata aqui de questionar as qualidades de al-Jāḥiẓ, não há motivo para isso. O ponto em questão é se temos de fato nessa obra a “teoria da evolução” que seria formulada por Darwin mil anos depois. Vejamos alguns trechos:
“Os animais estão envolvidos numa luta pela existência e pelos recursos, para evitar serem comidos e se reproduzirem”.
“Os fatores ambientais influenciam nos organismos fazendo com que desenvolvam novas características para assegurar a sobrevivência, transformando-os assim em novas espécies.”
“Os animais que sobrevivem para se reproduzir podem transmitir suas características exitosas a seus descendentes”.
Não há dúvida de que, formuladas mil anos antes do século XIX, estas são ideias que devem trazer assombro ao leitor, aliás, tanto assombro quantos os prenúncios de ideias que hoje associamos com o darwinismo na obra do filósofo grego Empédocles, para lembrar outro pensador por vezes citado – também equivocadamente – como descobridor precoce da teoria darwinista.
Contudo, considerando a teoria darwinista, vemos primeiro que temos aí algumas ideias que são similares a ideias que fazem parte daquela teoria, mas não temos A TEORIA, em sua diversidade e sistematicidade de ideias. Segundo, podemos também ver que, assim como temos semelhanças, temos também importantes diferenças. Há aí um tipo de raciocínio teleológico (vejam os itálicos nas afirmações acima) que não corresponde à teleologia que encontramos em Darwin: Os animais lutariam para evitar serem comidos e se reproduzirem, para transmitir características exitosas a seus descendentes. Se há uma teleologia em Darwin – o que, em si, é debatido pela comunidade acadêmica –, ela não tem essa natureza direta, mas opera de uma maneira que requer, para seu entendimento, um raciocínio funcional e comparativo. Nesse raciocínio, consideramos como organismos dotados de características que variam entre si (por exemplo, garras mais ou menos fortes, pernas mais ou menos robustas, cérebros mais ou menos volumosos) podem ter distinta performance ao utilizar essas características funcionalmente para obter recursos, os quais são usados para sobrevivência e reprodução. Não podemos nos estender sobre esse ponto na presente postagem, mas o leitor pode ponderar sobre a diferença entre duas maneiras de pensar: (1) pensar na busca de uma finalidade por alguma deliberação dos animais (ou de seu criador; mais sobre isso abaixo); e (2) pensar num processo seletivo que preserva nas populações características variantes que, não sendo planejadas, cumprem melhor ou pior alguma função na busca por alimento, abrigo, ou na proteção contra predadores ou parasitas, nas condições de vida a que estão sujeitos os organismos.
Outro ponto em que o raciocínio de al-Jāḥiẓ difere daquele que encontramos em Darwin diz respeito ao papel dos fatores ambientais. Em al-Jāḥiẓ, temos uma relação bastante direta, assumindo-se que fatores ambientais fazem com que organismos desenvolvam novas características para assegurar sua sobrevivência, transformando-os assim em novas espécies. Ora, essas são ideias muito mais próximas do chamado neo-Lamarckismo (muitas vezes confundidas com ideias de Lamarck) do que de Darwin. Em Darwin, os fatores ambientais atuam como uma espécie de filtro ou peneira que favorece determinadas características que já existem nos organismos, de acordo com sua maior ou menor funcionalidade face à performance necessária para obter recursos, como explicado acima. Além disso, espécies não se originam, para Darwin, diretamente pelo papel dos fatores ambientais, mas devido a divergências oriundas das diferenças de atuação da seleção natural sobre variantes encontradas nas populações de organismos.
Claro, importante ter em vista que não fui em busca do texto original de al-Jāḥiẓ para tecer esses argumentos. Isso viraria em si um projeto de pesquisa em história da ciência, que não pretendo desenvolver. Tudo que estou fazendo é colocar em questão, e assim provocar no leitor o mesmo tipo de salutar ceticismo, diante de afirmações sensacionalistas, que apelam a pessoas supostamente à frente de seu tempo, que poderiam, um milênio antes, descobrir as mesmas ideias que levariam tanto tempo para emergir. Esse tipo de história heróica, lendária, mítica cabe bem num roteiro de cinema. Na história, contudo, ninguém está jamais à frente de seu tempo, mas apenas explora condições de possibilidade objetivamente colocadas num dado tempo histórico. Podemos não ter informação suficiente sobre essas possibilidades e, então, nos maravilhamos com aquilo que não antevíamos. Maior atenção aos detalhes dos períodos históricos costuma evitar isso.
Por fim, vale considerar que al-Jāḥiẓ era mais similar a um teólogo natural do que a um cientista naturalista, como Darwin. Robert J. Asher desenvolve bem esse argumento em texto no Huffpost. Como os teólogos naturais britânicos, a exemplo de William Paley ou John Ray, seu principal propósito ao estudar os animais era buscar provas da existência do Criador, conforme a escola racionalista de teologia islâmica a que pertencia (Muʿtazila). A teleologia encontrada nas estruturas e nos comportamentos dos animais decorreria mais do planejamento desse criador do que da deliberação dos próprios animais. Não se trata, aqui, de criticar ou defender tal proposta teológica, mas de salientar as grandes diferenças em relação à proposta darwinista de explicar a evolução dos organismos de uma perspectiva naturalista. Vale sempre lembrar que esta é uma perspectiva legítima e bem-sucedida para explicar o mundo, que caracteriza a ciência desde meados do século XIX. Igualmente, vale sempre lembrar que isso não significa, claro, que não existam outras perspectivas legítimas, das quais deveríamos nos aprazer para coexistirmos com maior riqueza cultural, em vez de nos perdemos em buscas inúteis de supremacia.
Isso me serve para ilustrar um último ponto. É muito comum as pessoas se maravilharem com a ideia de seleção natural presente em autores anteriores a Darwin e Wallace (este, aliás, também proponente de parte das ideias reunidas por Darwin em sua teoria, mas não todas; mas isso é assunto para outra postagem). Contudo, elas perdem de vista que seleção natural era uma ideia comum na teologia natural britânica (é dela que falo agora, porque teria de investigar se ideia semelhante aparece em al-Jāḥiẓ, coisa que não fiz ainda).
Nada há de original em Darwin e Wallace ao usarem essa expressão. A grande novidade conceitual é que ambos os naturalistas deslocaram a seleção natural de um papel secundário e negativo, na criação, a um papel primário e positivo, na evolução. A seleção natural era, para os teólogos naturais britânicos, uma espécie de jardineiro dos jardins do Senhor. Como as espécies teriam sido criadas pelo Criador como tipos ideais e perfeitos, qualquer variação decorrente da luta pela sobrevivência, e do fato de que esta demandava ajustar-se a ambientes diversos, somente poderia afastar as espécies da perfeição. Era aí que a seleção natural tinha seu papel: ela eliminaria essas variações, de modo a preservar o tipo ideal criado. Por isso, o papel da seleção era secundário e negativo.
Nos trabalhos de Darwin e Wallace, ao contrário, a seleção natural é a força criativa na evolução, dando origem a adaptações e espécies, e não há tipos ideais, mas populações formadas por muitas variantes, com distintas performances perante o ambiente, que então as peneira via seleção natural. A seleção tem papel primário e positivo nessas teorias, muito distinto do papel na teologia natural britânica, malgrado o uso do mesmo termo.
Temos argumentado que algumas atitudes científicas diante do conhecimento e do mundo deveriam ser ensinadas nas aulas de ciências, em vez de se passar horas a lotar os estudantes de conteúdos. Uma delas é um salutar ceticismo que nos impele a sermos críticos antes de aceitarmos o que nos é dito. Se algo é dito, quais são as razões, quais os fundamentos, qual o quadro geral, a big picture na qual essa coisa que está sendo dita se enquadra. A afirmação deve ser escrutinada rigorosamente, com o máximo de nossos poderes racionais e, se ela sobrevive à crítica, devemos nos maravilhar com ela e então tirar as consequências que nos oferece.

Charbel N. El-Hani
Instituto de Biologia/UFBA
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sexta-feira, 3 de maio de 2019

Mudanças climáticas serão desastrosas para saúde humana, adverte relatório das Nações Unidas

A publicação, divulgada em 13 de março último, também alerta que os poluentes em nossos sistemas de água potável farão com que a resistência antimicrobiana se torne a maior causa de mortes até 2050 e com que substâncias químicas nocivas afetem a fertilidade masculina e feminina, bem como o desenvolvimento neurológico infantil.

Esta é a avaliação mais abrangente e rigorosa sobre o estado do meio ambiente, desenvolvida pela ONU Meio Ambiente durante os últimos cinco anos, com um alerta de que os danos ao planeta são tão desastrosos que a saúde das pessoas será cada vez mais ameaçada se ações urgentes não forem tomadas.
O relatório, produzido por 250 cientistas de mais de 70 países, afirma que se não ampliarmos drasticamente a proteção ambiental, cidades e regiões na Ásia, Oriente Médio e África poderão testemunhar milhões de mortes prematuras até a metade do século. A publicação também alerta que os poluentes em nossos sistemas de água potável farão com que a resistência antimicrobiana se torne a maior causa de mortes até 2050 e com que disruptores endócrinos afetem a fertilidade masculina e feminina, bem como o desenvolvimento neurológico infantil.
Mas o estudo também destaca que o mundo tem a ciência, a tecnologia e os recursos financeiros de que precisa para seguir na direção de um caminho de desenvolvimento mais sustentável, embora ainda falte apoio suficiente do público, das empresas e de líderes políticos, que se agarram a modelos ultrapassados de produção e desenvolvimento.
O sexto Panorama Ambiental Global foi lançado enquanto ministros do Meio Ambiente de todo o mundo participam do fórum ambiental de mais alto nível do planeta, em Nairóbi. Na pauta das negociações da Quarta Assembleia da ONU para o Meio Ambiente, estão questões críticas como o fim do desperdício de alimentos, a difusão de carros elétricos e o combate à poluição plástica nos oceanos, entre muitos outros desafios urgentes.
“A ciência é clara. A saúde e a prosperidade da humanidade estão diretamente ligadas ao estado do nosso meio ambiente”, afirmou Joyce Msuya, diretora-executiva interina da ONU Meio Ambiente. “Esse relatório é um panorama para a humanidade. Estamos numa encruzilhada. Vamos continuar no nosso caminho atual, que levará a um futuro sombrio para a humanidade, ou vamos dar uma guinada para um caminho de desenvolvimento mais sustentável? Essa é a escolha que nossos líderes políticos têm que fazer, agora.”
Opções de políticas inovadoras
A projeção futura de um planeta saudável com pessoas saudáveis baseia-se em um novo modo de pensar, em que o modelo “cresça agora, limpe a bagunça depois” é substituído por uma economia de “lixo-quase-zero” até 2050. De acordo com o Panorama, investimentos verdes de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) dos países trariam um crescimento no longo prazo tão alto quanto o previsto atualmente, mas com menos impactos das mudanças climáticas, escassez de água e perda de ecossistemas.
Atualmente, o mundo não está no caminho para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030 ou mesmo até 2050. Ações urgentes são necessárias agora, uma vez que qualquer atraso nas ações climáticas aumenta o custo de alcançar as metas do Acordo de Paris, pode reverter o nosso progresso e, em algum momento, tornar essas metas impossíveis.
O relatório aconselha a adoção de dietas com menor consumo intensivo de carne e redução do desperdício de alimentos, tanto em países desenvolvidos quanto em países em desenvolvimento. Isso reduziria em 50% a necessidade de aumentar a produção de comida para alimentar a população estimada de 9 a 10 bilhões de pessoas no planeta em 2050. Atualmente, em nível global, 33% dos alimentos comestíveis são desperdiçados e 56% do desperdício acontece em países industrializados, afirma o relatório.
Embora a urbanização esteja acontecendo globalmente num nível sem precedentes, o sexto Panorama Ambiental Global aponta que o fenômeno pode apresentar uma oportunidade para aumentar o bem-estar dos cidadãos, ao mesmo tempo em que diminui a pegada ambiental deles por meio de uma governança aprimorada, planejamento do uso da terra e infraestrutura verde. Além disso, o investimento estratégico em áreas rurais reduziria a pressão para que as pessoas migrem para as cidades.
O relatório pede ação para conter o fluxo de 8 milhões de toneladas de poluição plástica que vão parar nos oceanos a cada ano. Embora o problema tenha recebido cada vez mais atenção nos últimos anos, ainda não há um acordo global para enfrentar o lixo marinho.
Os cientistas observam avanços na coleta de estatísticas ambientais, particularmente de dados geoespaciais, e destacam que há um enorme potencial para avançar no conhecimento usando o big data e colaborações mais fortes em coleta de dados entre parceiros públicos e privados.
Ao invés de lidar com questões individuais, como a poluição da água, políticas que lidam com os sistemas na sua integridade, tais como energia, alimentação e resíduos, podem ser muito mais efetivas. Por exemplo, um clima estável e um ar limpo estão interligados. As ações de mitigação climática para alcançar as metas do Acordo de Paris custariam cerca de 22 trilhões de dólares, mas os benefícios de reduzir a poluição do ar poderiam equivaler a 54 trilhões de dólares.
“O relatório mostra que já existem políticas e tecnologias para traçar novos caminhos de desenvolvimento que evitarão esses riscos e levar saúde e prosperidade para todas as pessoas”, afirmaram Joyeeta Gupta e Paul Ekins, que copresidiram o processo do GEO-6.
“O que falta atualmente é a vontade política de implementar políticas e tecnologias a uma velocidade e escala suficientes. A quarta Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que está em curso nesta semana em Nairóbi, precisa ser o momento no qual os formuladores de políticas enfrentam os desafios e aproveitam as oportunidades de um futuro muito mais brilhante para a humanidade”, complementam.
O download do Relatório completo pode ser feito neste link (usuário geo6, senha geo1234).
Sobre as instituições envolvidas na pesquisa
A ONU Meio Ambiente é a principal voz global em temas ambientais. A agência promove liderança e encoraja parcerias para cuidar do meio ambiente, inspirando, informando e capacitando nações e pessoas a melhorar a sua qualidade de vida sem comprometer a das futuras gerações. A ONU Meio Ambiente trabalha com governos, com o setor privado, com a sociedade civil e com outras instituições das Nações Unidas e organizações internacionais pelo mundo.
A Universidade de Amsterdã é a maior universidade da Holanda e oferece a maior variedade de programas acadêmicos. Ao todo, 30.000 estudantes, 6.000 funcionários e 3.000 candidatos a PhD estudam e trabalham na instituição, que desenvolve diversas pesquisas em sustentabilidade, desde ecologia global até cidades sustentáveis. O Centro de Estudos de Sustentabilidade e Desenvolvimento (CSDS) da Universidade de Amsterdã assumiu a liderança no relatório GEO6.
A UCL foi fundada em 1826. Foi a primeira universidade inglesa criada depois de Oxford e Cambridge, a primeira a abrir o ensino universitário àqueles anteriormente excluídos e a primeira a fornecer ensino sistemático de Direito, Arquitetura e Medicina. A UCL está entre as melhores universidades do mundo e conta com uma comunidade de mais de 41.500 estudantes de 150 países e mais de 12.500 funcionários que buscam excelência acadêmica, quebram fronteiras e causam um impacto positivo nos problemas do mundo real. [Nações Unidas]
Reprodução: Socientifica
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quinta-feira, 2 de maio de 2019

Primeira molécula do Universo é detectada no espaço

O primeiro tipo de molécula que se formou no Universo foi detectado no espaço pela primeira vez, após décadas de busca, informou a Nasa na última quarta-feira (17).
A molécula é um casamento improvável de hélio e hidrogênio, conhecido como íon hidro-hélio, ou HeH+. Os cientistas fizeram a descoberta em nossa própria galáxia usando o maior observatório aerotransportado do mundo, o Observatório Estratosférico da NASA para a Astronomia Infravermelha, ou SOFIA.
Mais de 13 bilhões de anos atrás, o Universo era uma sopa indiferenciada de três elementos simples, de átomo único. As estrelas só se formariam 100 milhões de anos depois.
Apenas 100 mil  anos após o Big Bang, surgiu a primeira molécula.
“Foi o começo da química”, disse David Neufeld, professor da Universidade John Hopkins e coautor do estudo, que detalha como — depois de uma busca de décadas — os cientistas finalmente detectaram essa molécula no espaço. “A formação de HeH+ foi o primeiro passo em um caminho de complexidade crescente no Universo. Uma mudança tão importante como a da vida de célula única para a vida multicelular na Terra”, disse Neufeld à AFP.
Modelos teóricos há muito tempo convenceram os astrofísicos de que o HeH+ veio primeiro, seguido — em uma ordem precisa — por um desfile de outras moléculas cada vez mais complexas e pesadas.
O HeH+ também foi estudado em laboratório em 1925, mas o HeH+ em seu habitat natural permanecia além do alcance dos cientistas.
“A falta de provas definitivas de sua própria existência no espaço interestelar tem sido um dilema para a astronomia por um longo tempo”, disse o autor principal, Rolf Gusten, cientista do Instituto Max Planck de Radioastronomia, em Bonn.
Na década de 1970, os modelos sugeriam que o HeH+ deveria existir em quantidades significativas nos gases brilhantes ejetados pela morte de estrelas semelhantes ao Sol, que criavam condições semelhantes às encontradas no Universo primordial.O problema era que as ondas eletromagnéticas emitidas pela molécula estavam em um alcance anulado pela atmosfera da Terra e, portanto, indetectável do solo.
Assim, a NASA e o Centro Aeroespacial Alemão uniram forças para criar um observatório aéreo com três componentes principais: um enorme telescópio de 2,7 metros, um espectrômetro de infravermelho e um Boeing 747 grande o suficiente para carregá-los.
A uma altitude de quase 14 mil metros, o observatório Estratosférico de Astronomia de Infravermelho, ou SOFIA, evitou 85% do “ruído” atmosférico de telescópios terrestres.
Os dados de uma série de três voos em maio de 2016 continham a evidência molecular que os cientistas há muito procuravam, entrelaçada na nebulosa planetária NGC 7027, a cerca de três mil anos-luz.
“A descoberta de HeH+ é uma demonstração dramática e bela da tendência da natureza a formar moléculas”, disse Neufeld.
Reprodução: ciencianautas
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terça-feira, 30 de abril de 2019

MEC corta verba dea UnB, UFF e UFBA por 'balbúrdia'

Reprodução: Estadão


BRASÍLIA - O Ministério da Educação (MEC) vai cortar recursos de universidades que não apresentarem desempenho acadêmico esperado e, ao mesmo tempo, estiverem promovendo “balbúrdia” em seus câmpus, afirmou o ministro Abraham Weintraub ao Estado. Três universidades já foram enquadradas nesses critérios e tiveram repasses reduzidos: a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), disse. Segundo ele, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Minas Gerais, está sob avaliação.


“Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”, disse o ministro. 
De acordo com Weintraub, universidades têm permitido que aconteçam em suas instalações eventos políticos, manifestações partidárias ou festas inadequadas ao ambiente universitário. “A universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo”, disse. Ele deu exemplos do que considera bagunça: “Sem-terra dentro do câmpus, gente pelada dentro do câmpus”.
Renata Agostini, O Estado de S.Paulo
30 de abril de 2019 | 03h00
BRASÍLIA - O Ministério da Educação (MEC) vai cortar recursos de universidades que não apresentarem desempenho acadêmico esperado e, ao mesmo tempo, estiverem promovendo “balbúrdia” em seus câmpus, afirmou o ministro Abraham Weintraub ao Estado. Três universidades já foram enquadradas nesses critérios e tiveram repasses reduzidos: a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), disse. Segundo ele, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Minas Gerais, está sob avaliação.
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MEC informou que programa de assistência estudantil não sofrerá impacto, apesar desses recursos integrarem verba bloqueável Foto: ERNESTO RODRIGUES/ESTADAO
“Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”, disse o ministro. 
De acordo com Weintraub, universidades têm permitido que aconteçam em suas instalações eventos políticos, manifestações partidárias ou festas inadequadas ao ambiente universitário. “A universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo”, disse. Ele deu exemplos do que considera bagunça: “Sem-terra dentro do câmpus, gente pelada dentro do câmpus”.
Weintraub não detalhou quais manifestações ocorreram nas universidades citadas, mas disse que esse não foi o único ponto observado. Essas instituições também estão apresentando resultados aquém do que deveriam, disse. “A lição de casa precisa estar feita: publicação científica, avaliações em dia, estar bem no ranking.” Ele, no entanto, não citou rankings. 
De acordo com o MEC, as três universidades tiveram 30% das suas dotações orçamentárias anuais bloqueadas, medida que entrou em vigor na semana passada. Os cortes atingem as chamadas despesas discricionárias, destinadas a custear gastos como água, luz, limpeza, bolsas de auxílio a estudantes, etc. Os recursos destinados ao pagamento de pessoal são obrigatórios e não podem ser reduzidos. 
Weintraub disse que o corte não afetará serviços como “bandejão”. O MEC informou que o programa de assistência estudantil não sofrerá impacto, apesar desses recursos integrarem a verba discricionária.
A UNB disse que verificou no sistema bloqueio orçamentário “da ordem de 30%” e espera conseguir revertê-lo. A UFBA e a UFF não se pronunciaram. 
O MEC está sendo forçado a definir cortes após o governo anunciar um grande contingenciamento no mês passado. Para garantir que cumprirá a meta fiscal , a equipe econômica estabeleceu que cerca de R$ 30 bilhões dos gastos previstos ficarão congelados. Desse total, R$ 5,8 bilhões terão de vir do MEC. 
Educação foi a pasta que mais sofreu bloqueio em termos absolutos. Ainda que o corte tenha sido proporcionalmente menor do que o de outros ministérios, foi um duro baque. A Lei Orçamentária estabelecia cerca de R$ 23,7 bilhões para despesas discricionárias na Educação como um todo. O governo bloqueou, portanto, quase 25% do dinheiro que estava reservado para custear esses gastos.
Como as universidades federais consomem a maior parte dos recursos do MEC, elas naturalmente seriam alvo de cortes. O ministro disse que, diante desse cenário, foi necessário definir critérios para quem sofreria mais com o bloqueio. O corte anunciado pelo ministro nas três universidades está longe, porém, do contingenciamento determinado pela equipe econômica. Juntas, as três instituições recebem cerca de R$ 165 milhões discricionários. 

Direito à expressão

Questionado se essa forma de escolha caracteriza, na prática, uma “lei da mordaça” nas universidades, ferindo a liberdade de expressão de alunos e professores, ele afirmou que todos “têm logicamente o direito de se expressar”, desde que o desempenho acadêmico esteja bom. “Só tomaremos medidas dentro da lei. Posso cortar e, infelizmente, preciso cortar de algum lugar”, afirmou. “Para cantar de galo, tem de ter vida perfeita.” 
O MEC não esclareceu quais indicadores de desempenho chamaram a atenção da pasta. Weintraub disse ainda que reitores precisarão redobrar a atenção no caso de festas. “Se aluno se machucar por causa de festa, cortaremos verba.”
Desde 2014, há redução nos repasses para despesas discricionárias das universidades. A crise contribuiu para o cenário. Neste ano, o aperto será mantido. Além da recuperação lenta da economia, há a linha estabelecida por Jair Bolsonaro. O plano de governo já trazia a indicação de que, se eleito, ele daria ênfase à educação básica. 
Ao Estado, em sua primeira entrevista no cargo, Weintraub reforçou a diretriz e disse que a política para universidades tem de respeitar “os pagadores de impostos”. “Quando vão na universidade federal fazer festa, arruaça, não ter aula ou fazer seminários absurdos que agregam nada à sociedade, é dinheiro suado que está sendo desperdiçado num país com 60 mil homicídios por ano e mil carências.”

Associação diz que sistema já está ‘no limite’

Apesar de ressaltar o contingenciamento com a suposta “balbúrdia”, outras universidades federais também já registraram congelamento de recursos neste ano. Todas tiveram bloqueio de valores de emendas parlamentares. Além disso, só tiveram 40% do recurso de custeio liberado para o 1.º semestre.
“As universidades estão há anos trabalhando no limite da capacidade. Não acredito que o MEC fará um corte orçamentário com base em juízo de valor, sem antes pedir esclarecimento às universidades. Infelizmente, o bloqueio está ocorrendo para todas as instituições”, disse Reinaldo Centoducatte, reitor da Federal do Espírito Santo (Ufes) e presidente da Andifes, associação de reitores da rede federal. 

Avaliação internacional

O ministro ainda acusou UnB, UFBA e UFF de queda no desempenho. No entanto, elas se mantêm em destaque em avaliações internacionais. O ranking da publicação britânica Times Higher Education (THE), um dos principais em avaliação do ensino superior, mostra que Unb e UFBA tiveram melhor avaliação na última edição.
Na classificação das melhores da América Latina, a Unb passou da 19.ª posição, em 2017, para 16.ª no ano seguinte. A UFBA passou da 71.ª para a 30.ª posição. A UFF manteve o mesmo lugar, em 45.º. Segundo a publicação, as três se destacam pela boa avaliação em ensino e pesquisa. E Unb e UFBA aparecem entre as 400 melhores instituições do mundo em cursos da área da saúde. 
Carlos Monteiro, especialista em gestão pela Universidade de Michigan, ainda avalia como contraditório punir uma universidade com corte de recursos por apresentar queda na qualidade. “O ministro deveria querer entender os motivos dos maus 
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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Doutoranda da UFRB detecta pela primeira vez vírus em abelhas nativas do Brasil

O Vírus das Asas Deformadas, responsável pelo massivo declínio de colônias de abelhas nos Estados Unidos e países europeus nas últimas décadas, foi detectado pela primeira vez em abelhas sem ferrão no Brasil, segundo um novo estudo publicado em janeiro deste ano na revista científica Journal of General Virology e premiado no Reino Unido. A descoberta é de autoria da doutoranda em Ciências Agrárias pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Flaviane Souza, em parceria com a Universidade de Salford.
A pesquisa envolveu a espécie de abelha nativa sem ferrão Melipona subnitida, popularmente conhecida como Jandaíra, e os resultados revelaram que 100% das colônias avaliadas possuíam o vírus deformador das asas das abelhas (DWV, devido à sigla em inglês). O estudo foi conduzido durante o período de maio de 2017 a dezembro de 2018 nos estados do Nordeste, a área de ocorrência natural da M. subnitida, e na ilha de Fernando de Noronha, onde estas abelhas foram introduzidas há 30 anos pela ação do homem e sobrevivem isoladas desde então.
“Este estudo fornece o primeiro relato para ocorrência do DWV em abelhas nativas brasileiras. Outros estudos já foram conduzidos aqui no Brasil e na Argentina com abelhas sem ferrão, sem, contudo, detectarem a presença viral. Agora podemos dizer que esse vírus é mundial”, diz Flaviane, que também atua na UFRB como Técnica de Laboratório na área de Biologia e é a principal autora do estudo. 
O vírus DWV teve seus primeiros registros na Ásia em meados dos anos de 1970 e de lá se espalhou pela Europa e América do Norte no inverno de 2006-2007, num fenômeno que ficou conhecido como CCD (Colony Collapse Disorder) ou Síndrome do Colapso de Desordem da Colônia. O declínio das abelhas iniciou-se com a associação do DWV com o ácaro Varroa destructor, um gênero que se alimenta das larvas de abelhas, e, de acordo com os especialistas, transformou-se numa pandemia mundial por meio do comércio e transporte de abelhas para a polinização de culturas.
“Apesar dos números alarmantes, não tínhamos registros desse vírus ou suas formas de danos no Brasil. Em geral, as colônias brasileiras sofrem perdas devido à falta de manejo, desmatamento, avanço da agricultura, uso de pesticida, dentre outros”, explica Flaviane. O objetivo de sua pesquisa foi, então, descobrir se havia a ocorrência do DWV nas abelhas nativas no país, quais as variantes (tipos A, B e C) e sua carga viral. Segundo a bióloga, foram escolhidas abelhas típicas do Nordeste, a fim de contribuir com o fortalecimento das espécies regionais.
Ela usou a técnica da transcriptase reversa com PCR em tempo real, que acessa o material genético do vírus que está dentro da abelha e amplia sua quantidade para a realização dos testes. Como resultados foram encontrados os tipos virais A e C, estando a variante B ausente. Para a área amostral do continente, a variante tipo A foi a dominante, sendo ultrapassada pelo tipo C apenas em alguns lugares. Para a ilha, o tipo A foi sempre dominante, prevalecendo superior a 90%. “A dominância do tipo A reflete a mesma situação encontrada nos EUA, embora lá o tipo B pareça estar substituindo lentamente as demais”, afirma Flaviane. “Já o tipo C foi recentemente descoberto, então pouco se conhece ainda sobre esta variante”, explica.
O professor Stephen J. Martin, da Universidade de Salford, um dos colaboradores da pesquisa e uma das referências mundiais em insetos sociais, como abelhas, cupins e formigas, relata que, até o momento, mais de 60 espécies de insetos e cinco espécies de aranhas e ácaros foram infectadas com o vírus DWV associado à abelha. “A pesquisa de Flaviane detectou que existem abelhas no Brasil infectadas com a rara cepa C do vírus, que acredita-se ser mortal para esta espécie. Então, agora, é importante determinar se o DWV está causando impacto na flora e fauna local, reduzindo o número de polinizadores”, diz.
Os primeiros resultados do estudo foram descritos no artigo Occurrence of deformed wing virus variants in the stingless bee Melipona subnitida and honey bee Apis mellifera populations in Brazilpublicado na edição de janeiro do Journal of General Virology, da Microbiology Society. A pesquisa com o título Detection of Deformed Wing Virus (DWV) in Brazilian stingless bees também foi premiada em primeiro lugar na categoria 3 Minutes Thesis Competition durante a X Conferência da Associação Brasileira de Estudantes de Pós-Graduação e Pesquisadores no Reino Unido (Abep-UK), evento realizado na Embaixada do Brasil em Londres.
O pró-reitor de Pesquisa, Pós-Graduação, Criação e Inovação da UFRB e orientador do estudo, professor Carlos Alfredo Lopes de Carvalho, comemora estes resultados que contribuem no diagnóstico do atual estado da saúde das abelhas sociais no Brasil, notadamente as patologias associadas aos meliponíneos. Além disso, Carvalho acredita que o estudo coloca a Universidade em posição de destaque na linha de pesquisa em saúde das abelhas, na qual outros trabalhos estão sendo realizados no âmbito do Grupo de Pesquisa Insecta do Centro de Ciências Agrárias, Biológicas e Ambientais (CCAAB) da UFRB, tanto no Programa de Ciências Agrárias quanto no Programa de Ciência Animal.
“A parceria com o professor Stephen J. Martin, viabilizada por meio do programa de Professor Visitante Especial (PVE) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), possibilitou a criação desta linha de pesquisa que já beneficiou a formação de diversos estudantes de graduação e pós-graduação, além de estágios pós-doutorais para pesquisadores e de estágio sanduíche para doutorandos da UFRB na Universidade de Salford. Trata-se de um projeto exitoso que possibilitou a internacionalização dos docentes e discentes da UFRB envolvidos, como é o caso da Flaviane”, afirma.
O trabalho com o vírus DWV também contou com a orientação da professora da UFRB, Maria Angélica Costa, especialista em melhoramento genético e biotecnologia, e teve ainda o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do CNPq, pelos respectivos programas de bolsas de Doutorado Sanduíche no Exterior. A defesa da tese de Flaviane está prevista para julho deste ano no Programa de Pós-Graduação em Ciências Agrárias da UFRB.
Reprodução: UFRB

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domingo, 14 de abril de 2019

Vírus é esperança para tratamento de retinoblastoma, tipo de câncer no olho

O retinoblastoma é um tipo de câncer ocular que começa na parte de trás do olho (retina) e afeta principalmente as crianças. Apesar de ser muito rara no Brasil (menos de 15 mil casos por ano), o tratamento daqueles que são diagnosticados pode ter um alto custo.  O tumor que "brota" na retina é fatal se não for tratado. 



No entanto, a quimioterapia pode causar perda permanente da visão, e os pacientes às vezes precisam de cirurgia para remover um ou ambos os olhos.
  
Mas uma nova pesquisa traz esperança para o tratamento agressivo. Em artigo publicado no periódico científico Science  Translational  Medicine, os cientistas relatam que um vírus parece combater esse câncer em animais -- e até diminui o tumor em crianças --, sem gerar efeitos colaterais graves.  Para os testes em animais, a equipe usou o adenovírus, que normalmente causa apenas infecções respiratórias leves nas pessoas. 

Ele foi geneticamente modificado, de modo que só podia se reproduzir dentro de células nas quais a via do retinoblastoma tinha um mau funcionamento. Para determinar se tal vírus seria seguro, os cientistas injetaram nos olhos de coelhos sem o tumor. 

Em seguida, os pesquisadores injetaram o vírus em camundongos com câncer nos olhos. Os olhos dos roedores que receberam o vírus permaneceram duas vezes mais intactos do que aqueles que não receberam tratamento.

Testes em humanos  

Com base nesses resultados, os pesquisadores começaram um ensaio clínico para testar se o vírus é seguro em crianças com retinoblastoma e que não responderam à quimioterapia ou ao tratamento com radiação. Dois pacientes receberam o vírus até agora.

Uma das crianças precisou remover um olho porque seu interior ficou muito nublado para monitorar o tumor. No entanto, a fatalidade ajudou os cientistas a notarem sinais preliminares de que o vírus está atacando os tumores.  

Uma análise do olho mostrou que o vírus estava se reproduzindo em algumas células tumorais. Eles não descobriram nenhuma evidência de que o vírus estivesse crescendo em células normais do olho ou danificando a retina.

Uma análise do olho mostrou que o vírus estava se reproduzindo em algumas células tumorais. Eles não descobriram nenhuma evidência de que o vírus estivesse crescendo em células normais do olho ou danificando a retina. 

No segundo paciente, o vírus parecia estar encolhendo e destruindo fragmentos de tumor, que são perigosos por poder se instalar na retina, originando novos tumores. Apesar dos primeiros resultados serem promissores, vários outros testes ainda precisam ser realizados antes que a técnica origine um novo tipo de tratamento.


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terça-feira, 9 de abril de 2019

Droga antienvelhecimento que mata células idosas passa em primeiro teste humano

Uma estratégia anti-envelhecimento passou em seu primeiro teste no início deste ano, depois que 14 voluntários tomaram drogas para matar células tóxicas em seus corpos.
O pequeno estudo em pessoas com doença pulmonar, relatado em janeiro, está sendo anunciado como a primeira tentativa de empregar drogas para limpar o corpo de células envelhecidas e tóxicas. Alguns pesquisadores acreditam que essa estratégia poderia ser empregada em pessoas saudáveis ​​para retardar o envelhecimento.
“Isso nos dá, em certa medida, uma luz verde para testes maiores”, diz James Kirkland, professor da Mayo Clinic que ajudou a liderar o estudo, realizado em clínicas no Texas e na Universidade Wake Forest a partir de 2016.
Os pacientes tomaram duas pílulas que Kirkland e seus colegas acreditavam que poderiam se livrar seletivamente das células envelhecidas: o dasatinibe, uma droga para a leucemia, e um suplemento chamado quercetina.
É cedo para drogas destinadas a retardar o envelhecimento, e alguns respiraram aliviados que os pacientes neste primeiro estudo não sofreram efeitos colaterais graves das drogas. “Minha preocupação é que não devamos pular nisso rápido demais, porque se houver um erro ou algo que não entendemos, isso pode definir o campo de volta”, diz  Judith Campisi, professora do Instituto Buck, na Califórnia.
Este foi um teste piloto – nem mesmo na primeira fase de uma sequência de três etapas de testes necessários para obter a aprovação da Food and Drug Administration dos EUA. Então, oficialmente, não mostrou nada sobre o envelhecimento.
Todos os 14 pacientes sofriam de uma doença pulmonar fatal, difícil de tratar, chamada fibrose pulmonar idiopática, o que explica por que eles estavam dispostos a participar do experimento. Os médicos descobriram que nove doses das duas pílulas ao longo de três semanas pareciam melhorar a capacidade dos pacientes de andar um pouco mais na mesma quantidade de tempo e várias outras medidas de bem-estar.
Uma bolha de entusiasmo comercial foi construída em torno da ideia de que o envelhecimento poderia ser adiado, ou seus efeitos temperados, usando tratamentos com drogas. Uma empresa chamada Unity Biotechnology, de Brisbane, na Califórnia, está desenvolvendo dois medicamentos senolíticos, o primeiro dos quais está em um ensaio clínico de fase 1 para osteoartrite – está sendo injetado nos joelhos das pessoas. Campisi é co-fundador da Unity, e Kirkland também detém ações da empresa pública, que atualmente vale cerca de meio bilhão de dólares.
Essas drogas visam as células senescentes, que esgotaram sua capacidade de se dividir, mas permanecem capazes de liberar uma potente mistura de sinais químicos. “Acredita-se que essas células e as substâncias que elas produzem estão envolvidas no processo de envelhecimento”, diz Nicolas Musi, que participou do novo estudo e dirige o Instituto Sam e Ann Barshop para Estudos de Longevidade e Envelhecimento na Universidade do Texas. Austin. “A ideia é que remover essas células pode ser benéfico para promover o envelhecimento saudável e também prevenir doenças do envelhecimento.”

Na fibrose pulmonar idiopática, células senescentes se acumulam nos pulmões. Em testes anteriores em camundongos, uma combinação de dasatinibe e quercetina, que é um pigmento de planta, mostrou eliminar essas células e prolongar o tempo em que os animais permaneceram saudáveis ​​(embora não os fizessem viver mais).
“É um vislumbre do que pode acontecer enquanto colocamos esses agentes em humanos”, diz Kirkland. Ele adverte os entusiastas antienvelhecimento de tomar as pílulas por conta própria (a quercetina já está disponível em lojas on-line de fornecedores de suplementos com nomes como LifeExtension). “Quando vamos de ratos para as pessoas, é aí que vemos as coisas darem errado”, diz Kirkland. “As pessoas simplesmente não deveriam estar tomando essas drogas fora do contexto de um estudo clínico supervisionado”.
Nem tudo sobre células senescentes é ruim. Acredita-se que as células e suas secreções sejam importantes durante o desenvolvimento de embriões, no momento do trabalho de parto, na cicatrização de feridas e na formação de tecido cicatricial. “Você nunca iria querer administrar senolíticos a uma mulher grávida”, diz Campisi. “Agora está ficando claro que você precisa dessas secreções para que certas coisas boas aconteçam. Quando as secreções se tornam crônicas, ao contrário de periódicas ou episódicas, é quando começa a dirigir patologia.”
Os pesquisadores estão iniciando seus testes em pessoas com doença grave, mas esperam explorar se agentes senolíticos podem ser administrados a pessoas saudáveis, como uma limpeza dental semestral para remover a placa bacteriana. “Você reduz o peso das células senescentes, mas não precisa chegar a zero”, imagina Campisi. “E então você sai das drogas.”
Musi diz que ele e Kirkland e seus colaboradores começaram um teste em mais 15 pacientes com problemas no pulmão, e a equipe da Mayo está testando a combinação de drogas em 20 pacientes com doença renal crônica. “Se vemos sinais de eficácia e não encontramos efeitos colaterais muito ruins, tentaremos chegar a pessoas com condições cada vez menos ameaçadoras à vida”, diz Kirkland. “Se tudo der certo.” [MIT Technology Review]
Reprodução: Socientifica
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sábado, 6 de abril de 2019

Falência de gráfica que imprime Enem coloca exame em risco

O anúncio de falência da gráfica RR Donnelley, que desde 2009 imprime as provas do Enem, coloca em risco a realização do exame neste ano. O Enem ocorre em novembro e, para cumprir o cronograma, a impressão das provas deve ocorrer até maio, no máximo. O trabalho realizado para o Enem não é feito por qualquer gráfica, uma vez que a operação demanda reforçado sistema de segurança e tem entraves logísticos.

Colabora para a insegurança a falta de liderança atual dentro do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pelo exame. Na semana passada, o presidente do instituto, Marcus Vinicius Rodriguesfoi demitido pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez. 

Já o chefe da da diretoria de avaliação da Educação Básica dentro do Inep, Paulo Teixeira, pediu demissão em solidariedade ao demitido. Essa é a diretoria que cuida do Enem. Questionado, o Inep não se manifestou até as 17h sobre a falência da gráfica, revelada pelo jornal "O Estado de S. Paulo".



De forma reservada, servidores e ex-funcionários do instituto falaram à reportagem que há grande preocupação com as indefinições e com a ausência de uma pessoa capaz de liderar essa operação.

No ano passado, o Enem recebeu 5,5 milhões de inscrições. No total, foram impressas 11 milhões de provas. O resultado é a porta de entrada para praticamente todas as universidades do país.

A gráfica assumiu a impressão do Enem 2009, depois que a prova vazou naquele mesmo ano. O sistema de segurança e logística foi aprimorado ao longo dos anos, ao mesmo tempo em que órgãos de controle cobravam a realização de licitação para o serviço.

A RR Donnelley tem contrato com o Inep para a realização da prova até este ano, segundo a Folha de S.Paulo apurou. A ideia dentro do Inep era publicar um novo pregão neste ano, mas a medida não andou. Há um processo de licitação envolvendo outras avaliações educacionais, como o Saeb, que também segue parado — este por causa de questionamentos de empresas concorrentes. 

Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), João Scortecci, a RR Donnelley não é a única empresa capaz de atender às demandas do Inep, mas o número de companhias aptas não passa de cinco no Brasil. "Imprimir é fácil, o difícil é a logística. Exige segurança, fiscalização e muito bom senso", diz Scortecci.

Além da impressão das provas, ocorre na gráfica toda a organização das provas antes do envio para os locais de prova, como a separação das malotes por cidade. A Polícia Federal ainda faz com antecedência uma vistoria no local para garantir a segurança do processo.

O pedido de falência da RR Donnelley foi protocolado no domingo (31) na 1ª Vara Cível de Osasco. Em comunicado, a empresa afirma que "entre os fatores que levaram o grupo a tomar esta medida estão as atuais condições de mercado na indústria gráfica e editorial tradicional, que estão difíceis em toda parte, mas especialmente no Brasil".

Diz ainda que recentemente perdeu um de seus principais clientes e registrou uma drástica redução no volume de trabalho contratado.

De acordo com a nota, a empresa entrará em contato com o sindicato e avaliará a possibilidade de rescindir os contratos de trabalho nos próximos dias, o que permitirá aos funcionários ter acesso aos valores do FGTS e ao seguro-desemprego.
Falência é novo golpe no mercado editorial.

A notícia da falência é mais um golpe em um mercado editorial que atravessa uma crise profunda, com a recuperação judicial da Saraiva e da Livraria Cultura. A RR Donnelley, uma das principais do mundo, que atuava há mais de 25 anos no Brasil, era a principal gráfica atender grandes editorias, como os grupos Ediouro e Companhia das Letras.

Ela era uma das preferidas para produção de obras em capa dura ou boxes de luxo, como a coleção Clássicos de Ouro, da Nova Fronteira. Os livros que a Donnelley tinha em produção não serão entregues, o que deve prejudicar o calendário de lançamentos de grandes casas.

A notícia pegou de surpresa o mercado editorial. A Sextante tentou entregar na manhã desta segunda um carregamento de 70 toneladas de papel para a impressão de um lançamento, mas os entregadores da Suzano, a fornecedora, já encontraram a gráfica fechada.

As gráficas vêm sofrendo os efeitos da crise do setor editorial não só pela situação delicada das duas principais redes do país, mas também pela redução nas compras de livros pelo Ministério da Educação desde o segundo mandato de Dilma Rousseff (PT) — o governo é responsável por cerca de um terço de todo o faturamento anual do setor.

Em momentos assim, a primeira medida dos editores é renegociar preços e prazos de pagamento com as gráficas.

Entre as editoras, porém, a decisão da multinacional ainda parece mal explicada -além de ser uma medida incomum uma empresa pedir sua falência sem antes tentar uma recuperação judicial. Além disso, a Donnelley pertence a um grupo robusto, com atuação em vários países.

Para Marcos Pereira, presidente da Sextante e do Sindicado Nacional dos Editores de Livros (Snel), a crise do setor não parece o suficiente para justificar uma decisão do tipo.

"É uma gráfica mundial. Não consegui entender a motivação desse pedido de autofalência, deve haver algo mais sério do que apenas um problema de fluxo de caixa. Isso cria uma confusão muito grande, porque toda a produção fica presa. Neste momento tudo lá está lacrada", diz ele.

Reprodução: Folhape
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