sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Formiga pré-histórica que caçava 'com chifre' é encontrada preservada em âmbar

Fóssil capturou o momento em que uma 'Ceratomyrmex ellenbergeri', ou formiga do inferno, ataca sua presa com a ajuda de uma estrutura alongada na cabeça.



Pesquisadores da França, dos Estados Unidos e da China apresentaram nesta quinta-feira (6) um fóssil preservado em âmbar que captura o momento exato em que uma formiga pré-histórica abocanhava sua presa

O estudo divulgado pela revista "Current Biology" sugere que a Ceratomyrmex ellenbergeri, formiga conhecida como "infernal" usava uma espécie de chifre para segurar suas vítimas. O espécime faz parte de uma subfamília já conhecida, os haidomyrmecinæ.

O fóssil de mais de 99 milhões de anos foi encontrado em Myanmar e mostra o exato momento em que a "infernal" aprisiona sua caça em uma espécie de pinça formada por sua mandíbula e o "chifre", o clípeo presente até hoje em outras formigas, mas sem o mesmo formato.


Capturar momentos como este em um fóssil é algo "extremamente raro", disse em nota, Phillip Barden, um dos autores do artigo "Specialized Predation Drives Aberrant Morphological Integration and Diversity in the Earliest Ants".

Segundo ele, poder presenciar um "comportamento fossilizado", como é este aprisionado no âmbar, "é inestimável". Essa predação fossilizada confirma a hipótese dos hipótese dos pesquisadores sobre como as peças bucais das formigas do inferno funcionavam.

"A única maneira de capturar presas em um arranjo desse tipo é que as peças bucais das formigas se movam para cima e para baixo em uma direção diferente da de todas as formigas vivas, de quase todos os insetos", explicou Barden.

Os cientistas sugerem que as adaptações para a captura de presas é o que provavelmente explica a diversidade de mandíbulas e clípeos observados nas 16 espécies de formigas do grupo "infernal" já identificados até o momento.

Em 2017, Barden e seus colegas identificaram uma Linguamyrmex vladi, que teria usado um chifre reforçado na cabeça para empalar suas presas e se alimentar do líquido interno (hemolinfa) de outros insetos.

Jurassic Park

A formiga caçadora foi descoberta no vale de Hukawn, em Myanmar, que durante a era Mesozoica era cercado por árvores produtoras da resina, substância pegajosa, cor de caramelo que escorre pelo tronco.

Plantas e pequenos animais como lagartixas e aranhas costumam ser envolvidos pelo fluido e após milhões de anos se transformam em fósseis. Como no filme Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros, cientistas descobriram muitas especies extintas de animais, guardados em pedras de âmbar – é o caso da abelha mais antiga do mundo, também encontrada neste vale.

Reprodução: G1
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'Grande ameaça à saúde pública': cientistas descobrem mutação resistente a remédio contra a malária

Pesquisadores em Ruanda descobriram casos de resistência à artemisinina, um medicamento de primeira linha usado para tratar a malária.



Pesquisadores em Ruanda identificaram uma cepa do parasita causador da malária que é resistente a medicamentos.

O estudo, publicado na revista "Nature", revelou que os parasitas eram capazes de resistir ao tratamento com a artemisinina, um remédio de linha de frente na luta contra a doença.

Esta é a primeira vez que cientistas observam resistência ao medicamento artemisinina na África.

Os pesquisadores alertam que isso "representaria uma grande ameaça à saúde pública" no continente.

Cientistas do Instituto Pasteur, em colaboração com o Programa Nacional de Controle da Malária em Ruanda (Rwanda Biomedical Center), a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Cochin Hospital e a Columbia University (em Nova York, nos EUA) analisaram amostras de sangue de pacientes em Ruanda.

Eles encontraram uma mutação específica do parasita, resistente à artemisinina, em 19 de 257 (ou 7,4%) dos pacientes em um dos centros de saúde que eles monitoraram.

Segundo a OMS, a malária causou a morte de 405 mil pessoas em todo o mundo, em 2018.

Evolução de parasitas

No artigo, os cientistas alertaram que os parasitas da malária que desenvolveram resistência a medicamentos anteriores são "suspeitos de terem contribuído para milhões de mortes adicionais por malária em crianças africanas na década de 1980".

Quando o primeiro medicamento contra a malária, a cloroquina, foi desenvolvido, os pesquisadores pensaram que a doença seria erradicada em poucos anos.

No entanto, desde 1950 os parasitas evoluíram para desenvolver resistência a sucessivas drogas.

Retrocesso

O repórter de saúde e ciência da BBC, James Gallagher, avalia que "este é um momento profundamente preocupante e altamente significativo", e que marca um retrocesso no combate à malária.

Ele aponta que a resistência à artemisinina não é nova, pois tem sido vista em partes do Sudeste Asiático por mais de uma década. Em algumas regiões, 80% dos pacientes estão infectados com parasitas da malária que resistem ao tratamento.

"Mas a África sempre foi a maior preocupação. É onde ocorrem mais de nove em cada dez casos da doença", ele diz.

Segundo ele, parece que o que houve foi que a resistência evoluiu em parasitas da malária na África, e não que tenha se espalhado do Sudeste Asiático para o continente africano.

"O resultado, porém, é o mesmo: a malária está ficando mais difícil de tratar."

A infecção por malária é agora comumente tratada com uma combinação de dois medicamentos: artemisinina e piperaquina.

Mas, os parasitas da malária começaram a desenvolver resistência à artemisinina, o que foi registrado pela primeira vez em 2008 no sudeste da Ásia.

Na época, os cientistas temiam que a resistência à artemisinina também pudesse ocorrer na África e ter consequências devastadoras. Agora, a pesquisa indica que esses temores podem ter se concretizado.

Em 2018, os países africanos responderam ​​por mais de 90% das mais de 400 mil mortes por malária registradas, sendo as crianças o contingente mais afetado.

Reprodução: G1
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quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Cientistas revivem micróbios de mais de 100 milhões de anos

Segundo um estudo da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha e da Terra, cientistas conseguiram reviver micróbios que estavam em estado de dormência no fundo do oceano há pelo menos 101,5 milhões de anos.

O trabalho, liderado por Yuki Morono, foi publicado na revista Nature Communications e revelou que os minúsculos organismos se mantiveram no fundo do Pacífico Sul em sedimentos pobres em nutrientes, mas com oxigênio suficiente para permitir a vida.

“Quando os encontrei, primeiramente fiquei cético em relação aos resultados, se seriam algum erro ou falha no experimento”, disse o autor à agência de notícias AFP. “Sabemos agora que não há limite de idade para organismos na biosfera dessa camada do mar”, ele completou.

As amostras foram obtidas em 2010, quando uma expedição do Programa Integrado de Perfuração Oceânica (IODP) recuperou sequências sedimentares da planície abissal do Giro do Pacífico Sul. O objetivo era o de examinar a vida e a habitabilidade do subsolo na região de menor índice de vida marinha.

A maioria das 6.986 células individuais analisadas por meio da técnica de espectrometria de massa de íons secundários em nanoescala, incorporou ativamente substratos de carbono e nitrogênio marcados com isótopos. Após 68 dias da incubação pelos cientistas, elas começaram a se alimentar e se multiplicar.

Assim, a pesquisa aponta que uma célula deve metabolizar uma certa quantidade de carbono em relação à própria biomassa antes que possa dobrar de tamanho, dividir ou mesmo manter um estado ativo. As comunidades amostradas provavelmente ficaram presas no sedimento desde sua deposição e ,até então, seus status fisiológico e potencial de crescimento eram desconhecidos.

Os resultados também sugerem que comunidades microbianas, amplamente distribuídas em sedimentos abissais orgânicos pobres, consistem principalmente aeróbios que retêm seu potencial metabólico sob condições de energia extremamente baixa. Além disso, a formação de esporos foi sugerida como um dos possíveis mecanismos para a sobrevivência em longo prazo.

Reprodução: Tecmundo
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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Câncer maligno é diagnosticado em fóssil de dinossauro pela primeira vez

O animal, que viveu há 76 milhões de anos, foi diagnosticado com osteossarcoma — um tipo de câncer que também atinge os humanos


Pesquisadores do Museu Real de Ontário em parceria com a Universidade McMaster, ambas do Canadá, encontraram, pela primeira vez, um câncer ósseo maligno no fóssil de um dinossauro. O estudo foi publicado na revista científica The Lancet Oncology nesta segunda-feira (3).

O animal, que viveu há cerca de 76 milhões de anos, pertencia à espécie Centrosaurus apertus e foi descoberto na cidade canadense de Alberta em 1989. Uma das características que mais chamou a atenção do pesquisadores foi uma espécie de "fratura curativa" em um dos membros do fóssil. Em 2017, cientistas decidiram investigá-la usando técnicas médicas: eles reuniram uma equipe de especialistas multidisciplinares e profissionais médicos de áreas como patologia, radiologia, cirurgia ortopédica e paleopatologia.

O grupo examinou o osso, realizou tomografias computadorizadas de alta resolução e usou ferramentas de reconstrução para visualizar a progressão do câncer. Assim, usando esse processo rigoroso, os pesquisadores chegaram ao diagnóstico de osteossarcoma — um câncer ósseo que se espalha rapidamente, tanto no osso em que se origina como em outros órgãos, incluindo o pulmão.

"O diagnóstico de cânceres agressivos como este em dinossauros são difíceis e requerem conhecimento médico e vários níveis de análise para identificar adequadamente", disse, em nota, o coautor Mark Crowther, professor de patologia e medicina molecular da Universidade McMaster. "Aqui, mostramos a inconfundível assinatura do câncer ósseo avançado em um dinossauro. É muito emocionante".

Para confirmar esse diagnóstico, eles compararam o fóssil a um osso normal de um dinossauro da mesma espécie, bem como a uma fíbula humana com um caso confirmado de osteossarcoma. Apesar de o fóssil ser de um dinossauro adulto com um estágio avançado de câncer — que pode ter invadido outros sistemas do corpo —, os cientistas acreditam que ele morreu quando foi atingido por uma grande enchente.

Essa técnica inovadora também poderá ajudar na criação de vínculos entre doenças humanas e doenças do passado, podendo estabelecer uma evolução. Evidências de muitas outras doenças que compartilhamos com dinossauros e outros animais extintos ainda podem estar em coleções de museus que precisam ser reexaminadas.

Reprodução: Revista Galileu
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sábado, 1 de agosto de 2020

Cientistas descobrem duas novas espécies de mamífero australiano

O achado preocupa porque significa que, provavelmente, há menos espécimes do petauro-do-açúcar, única espécie de planador australiano conhecida até então



Pesquisadores da Universidade Charles Darwin, na Austrália, descobriram que o pequenino (e carismático) petauro-do-açúcar (Petaurus breviceps) está em maior risco de extinção do que se pensava, principalmente após incêndios que devastaram o sudeste australiano entre 2019 e 2020. Em um estudo, publicado em julho no Zoological Journal of the Linnean Society, os cientistas afirmam que existem três espécies do mamífero, e não apenas uma, como se acreditava anteriormente. E isso é preocupante.

Segundo os especialistas, a pesquisa teve início quando uma investigação anterior sobre a genética desses animais levantou questões sobre a identidade do petauro (também chamado de planador) encontrado na região norte da Austrália. Eles analisaram um espécime de pelo menos 150 anos presente no Museu de História Natural de Londres, na Inglaterra, e também avaliaram mais de 300 petauros vivos em diferentes regiões australianas — e aí veio a surpresa.

O estudo apontou diferenças cruciais entre os animais, levando os cientistas a reclassificarem os petauros em três espécies diferentes: petauro-do-açúcar (Petaurus breviceps), o petauro-de-savana (Petaurus ariel) e o petauro-de-Kreft (Petaurus notatus). "O petauro-do-açúcar e o petauro-de-Kreft se parecem e podem coexistir em algumas áreas do sudeste da Austrália", explicou Teigan Cremona, coautora do estudo, em declaração.

A descoberta, entretanto, está atrelada a uma triste notícia: com a nova classificação, os cientistas perceberam que existem muito menos Petaurus breviceps do que se acreditava. "Quando consideradas como uma espécie, os petauros-do-açúcar eram considerados difundidos e abundantes, e classificados como 'menos preocupante' [para o risco de extinção]", disse Cremona. "A distinção dessas três espécies significou uma distribuição substancialmente reduzida dos petauros-do-açúcar, tornando essa espécie vulnerável ​​à destruição de habitats em larga escala."

Um exemplo de destruição recente foram os incêndios florestais que devastaram o sudeste australiano entre 2019 e 2020, que provavelmente afetaram substancialmente a vida destes animaizinhos. De acordo com a pesquisadora, o fogo afetou regiões onde os petauros constumam viver, mantando-os ou prejudicando seus hábitos.

Outro estudo recente, conduzido também por pesquisadores da Universidade Charles Darwin, estimou que a espécie sofreu queda populacional de 35% nas últimas três décadas. É exatamente por isso que medidas de preservação são tão importantes, assim como mais estudos sobre os planadores. "Isso nos permitirá avaliar efetivamente o status de conservação de cada espécie e os esforços de manejo necessários para garantir sua proteção diante de um futuro incerto", disse Sue Carthew, reitora da instituição.

Reprodução: Revista Galileu
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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Urso-polar pode ser extinto por causa de fome até 2100


Segundo um novo estudo da Universidade de Toronto, no Canadá, os ursos-polares deverão estar extintos até o final do século, caso nada seja feito para conter o aquecimento global.

O encolhimento da área do Ártico tem exposto esses animais a condições cada vez mais precárias de sobrevivência, que podem culminar em seu desaparecimento nas próximas décadas.

Existem cerca de 25 mil ursos-polares no Ártico, divididos em 19 subpopulações. Eles têm as focas como principal fonte de alimentação e ficam à espera delas em buracos que se formam na camada de gelo. Com o encolhimento da placa, eles estão sendo obrigados a vagar distâncias maiores em busca de refeição — tanto para si quanto para seus filhotes. Em muitos momentos, os mamíferos ficam tempos prolongados nas praias, onde não há alimento o suficiente para manter uma subpopulação.

Longos períodos de jejum e uma consequente amamentação mais precária devem tornar os ursos-polares extremamente vulneráveis. A diminuição da reprodução pode ser mais acentuada, levando a um declínio populacional muito rápido. De acordo com Peter Molnar, principal autor do estudo, existe a possibilidade de a espécie sobreviver em uma pequena subpopulação, no norte do Ártico.

Para frear a extinção do mamífero, seria necessário que as emissões de carbono fossem reduzidas. “Infelizmente ainda perderíamos alguns grupos, especialmente algumas das populações mais ao sul, devido à perda de gelo no mar”, explicou Molnar.

Estima-se que a camada de gelo encolheu 13% por década, entre 1980 e 2010. Isso fez com que algumas regiões onde tinham gelo durante todo o ano, agora apresentam períodos sem gelo durante o verão. Já outras, que tinham essa alternância, agora demoram mais tempo para recuperar a camada de gelo após o verão. Isso tem obrigado os ursos-polares a ficar mais tempo de jejum, algo que, nas próximas décadas, pode culminar na extinção da espécie.

Reprodução: Tecmundo
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domingo, 26 de julho de 2020

DNA de cadeia quádrupla abre caminho para terapia contra o câncer



Pesquisadores da Cambridge University descobriram que a hélice dupla do DNA (onde toda a informação genética dos seres vivos está guardada) pode dobrar sobre si mesma, formando uma cadeia quádrupla (DNA G-quadruplexes, ou G4s) estável em células humanas saudáveis. Ela já havia sido identificada apenas em células cancerígenas e em experimentos de laboratório.



Essa estrutura só é possível por causa de uma das quatro bases hidrogenadas – a guanina, que, juntamente com a citosina, a adenina e a timina, une as duas fitas de polinucleotídeos, formando os degraus da “escada”. A dobradura acontece quando a guanina se liga a si mesma, criando uma estrutura semelhante a um quadrado.

Para visualizar o rearranjo, a equipe anexou um novo tipo de marcador fluorescente ao DNA de células vivas. Antes, para ver a formação do DNA quádruplo era necessário matar as células ou, ainda, usar altas concentrações de sondas químicas – porém, isso fazia com que estas se inserissem no DNA, interrompendo-o e causando a formação de G4s (e não a observando se formar naturalmente).

Um dos coautores do estudo e responsável pelo desenvolvimento da nova técnica, o biofísico da University of Leeds Aleks Ponjavic, explica que “a sonda se liga à G4 por apenas milissegundos sem afetar sua estabilidade, o que nos permite estudar o comportamento do DNA sem influência externa e entender seu papel biológico”.

Novas terapias contra o câncer

As G4s se formariam para manter a molécula aberta, facilitando a leitura do código genético na formação do RNA e, consequentemente, a produção de proteínas e a quantidade de cada uma. Essa função é desempenhada normalmente por marcadores químicos no DNA, cujo papel é aumentar ou diminuir a atividade dos genes. A estrutura quádrupla do DNA teria papel semelhante.

"Essa descoberta nos força a repensar a biologia do DNA e pode melhorar nossa compreensão de como o material genético divulga suas informações. É uma nova área, com potencial para abrir caminhos no diagnóstico e na terapia de doenças como o câncer”, diz o cientista molecular Marco Di Antonio, pesquisador do Imperial College e principal autor do estudo publicado agora na revista Nature Chemistry.

Para os pesquisadores, a técnica vai permitir que as G4s encontradas em células de tumores sejam rastreadas, determinando seu papel na expressão da doença e revelando novos alvos para terapias e medicamentos que interrompam o processo.

Reprodução: Tecmundo
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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Cientistas revelam 'chave' do vírus da zika que pode ser esperança para tratamento


Primeiro era preciso entender se o vírus da zika causava microcefalia em fetos, o que foi comprovado em laboratório por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que publicaram seus resultados na prestigiada revista científica Nature em 2016.

As investigações sobre o zika continuaram e, agora, a equipe acaba de publicar um novo artigo em outro periódico do grupo Nature, a Nature Neuroscience.

Nele, os cientistas revelam detalhes da estratégia do vírus para entrar no corpo, desvirtuar as armas imunológicas do próprio organismo e infectar células de grávidas e seus filhos no útero, causando a microcefalia.

Conhecendo a estratégia do vírus, os pesquisadores propõem no novo artigo também medicamentos que se mostraram eficientes em conter o patógeno em experimentos com cobaias.

A publicação em 2016 foi uma urgente resposta científica a um surto de zika que começou no país em 2015. Segundo um relatório do Ministério da Saúde, entre 2015 e 2019 pelo menos 3.474 crianças no país nasceram com alterações no crescimento e desenvolvimento possivelmente relacionadas à infecção pelo vírus da zika — este número inclui apenas casos em que esta associação entre infecção e alterações foi confirmada, mas há centenas de outros que não puderam ser confirmados por razões diversas. Destas 3.474 crianças, 2.179 (63%) nasceram no Nordeste do país.

A infecção pelo zika pode levar a várias sequelas, entre elas a microcefalia — uma má formação gestacional que acarreta em cérebro e cabeça menores em um bebê, o que frequentemente afeta o desenvolvimento mental e físico da criança.

Boletins do ministério mostram que, em 2020, casos de zika na população geral (não apenas bebês) continuam sendo registrados, embora não na mesma dimensão que do surto de 2015-2016. Especialistas, porém, alertam que o país não está livre de uma nova epidemia, como a que já passou.

Desde o surto que começou em 2015, porém, cientistas não pararam de estudar a zika. O trabalho recém-publicado na Nature Neuroscience, por exemplo, levou quatro anos para ser concluído.

"Este artigo tem duas mensagens principais. Primeiro, o receptor AHR (receptor de aril hidrocarboneto, uma proteína presente dentro das células) tem um papel fundamental na infecção. Segundo, que drogas que testamos agindo no AHR funcionaram muito bem em testes com camundongos", resumiu à BBC News Brasil o imunologista Jean Pierre Schatzmann Peron, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

O caminho da vírus — e as apostas para contê-lo


No atual trabalho, a equipe contou com a colaboração de pesquisadores de instituições internacionais, como a Universidade Harvard, nos EUA, e a Universidade de Buenos Aires, na Argentina.

A pesquisa recebeu financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Os autores conseguiram identificar que, após invadir as células, o vírus age sobre o receptor AHR que, por sua vez, limita a produção do interferon tipo 1 e da proteína da leucemia promielocítica (PML) — ambas substâncias importantes para a defesa, ou resposta imune, do corpo.

"Receptores são proteínas presentes na membrana celular, no citoplasma ou ainda no núcleo. No caso da AHR, trata-se de uma proteína no citoplasma que, quando ativada, vai para o núcleo da célula. Essa proteína é observada em vários tipos de célula, incluindo as do sistema imune e neuronais", explica Peron.

Foi observado em camundongos que, após passar essa barreira imune da mãe, o vírus conseguiu cruzar a placenta, infectar os fetos e chegar às suas células "preferidas", os precursores de neurônios (em formação). O cérebro é lesionado e, então, ocorre a microcefalia.

Vale lembrar que a transmissão do zika pode acontecer da mãe para o feto, mas também por picadas do mosquito Aedes aegypti e por relações sexuais.

Na pesquisa publicada, os autores apresentam também bons resultados com duas drogas que bloqueiam esta ativação do AHR — uma autorizada apenas para uso em pesquisas e outra em estudo clínico como imunoterapia contra câncer.

Fêmeas de camundongos prenhes e infectadas com zika receberam os remédios e, depois, a lesão cerebral — principal alvo dos pesquisadores — melhorou tanto nas mães quanto nos fetos, segundo os pesquisadores fazendo com que os cérebros ficassem praticamente iguais aos de camundongos não infectados. O peso e o comprimento dos animais também melhorou após o tratamento.

Um próximo passo do estudo com estas drogas seria o teste com macacos e, depois, eventualmente com humanos, mas isso depende do investimento e interesse de algum laboratório farmacêutico.

No artigo, os próprios pesquisadores destacam que eventuais testes com as drogas precisam verificar se o tratamento traria efeitos colaterais — averiguação que é esperada em qualquer estudo clínico, mas que neste caso tem a particularidade de envolver também grávidas.

Sobre a passagem dos testes com cobaias para um eventual estudo clínico com pacientes, em que o sucesso da fase anterior não necessariamente se comprova, Peron diz que é favorável o fato de que a doença se apresenta de forma muito parecida em cobaias, macacos e humanos. Portanto, o sucesso observado com cobaias poderá ser visto em pessoas também.

Estudos que já levam anos

Francisco Quintana, pesquisador de Harvard e um dos coautores do artigo na Nature Neuroscience, já vinha trabalhando com terapias que agem na AHR desde 2006, especificamente para esclerose múltipla. Depois, vários grupos pelo mundo descobriram o papel do receptor em outras doenças — inclusive a dengue, causada por outro flavivírus como a zika, segundo encontrou a própria equipe brasileira posteriormente.

No momento em que os estudos com a AHR começaram, Jean Pierre Schatzmann Peron fazia "doutorado sanduíche" em Harvard. As trocas entre as equipes brasileira e americana continuam — uma das doutorandas da USP a assinar também o artigo está atualmente em Harvard.

Em 2016, a equipe da USP, também em colaboração com pesquisadores estrangeiros, liderou a publicação na Nature após fazer testes com camundongos infectados com zika comparados a não infectados.

Peso, tamanho do cérebro e composição dos tecidos mostraram diferenças significativas entre os dois grupos, comprovando a causalidade entre a infecção pelo vírus a microcefalia.

Reprodução: BBC
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sexta-feira, 17 de julho de 2020

Sintoma de Parkinson que 'congela' movimento pode ser contido com tratamento desenvolvido no Brasil

Uma pessoa vai dar um passo, mas, de repente, congela. A sensação é como se os pés tivessem ficado presos ao chão.



Esta é uma consequência frequente da doença de Parkinson, o chamado "congelamento da marcha". Pesquisadores estimam que mais de um terço das pessoas com a doença têm este sintoma, que é uma causa frequente de quedas, dependência e má qualidade de vida.

Uma equipe da Universidade de São Paulo (USP), liderada pela pesquisadora Carla da Silva Batista e supervisionada por Carlos Ugrinowitsch, da Escola de Educação Física e Esporte da universidade, publicou em junho os resultados de um estudo clínico que mostrou a eficácia de um protocolo de treinamento para tratar do congelamento da marcha.

O estudo dividiu 32 pessoas com Parkinson em dois grupos: um passou por fisioterapia tradicional (15 pessoas) e outro, um treino específico proposto pelos pesquisadores (17). Este combina exercícios de sobrecarga, coordenação motora, cognição e instabilidade com bolas e pranchas — sim, cair também fez parte do treinamento pelo qual os pacientes passaram por 12 semanas, em um total de 36 sessões.

O segundo grupo, que passou pelo treinamento específico, teve resultados melhores em vários critérios, observados em questionários respondidos pelos próprios pacientes, por avaliação médica do quadro e também por ressonância magnética (veja detalhes dos resultados abaixo).

"Construímos um conjunto de exercícios complexos, porque a complexidade induz à neuroplasticidade — que é a adaptação do cérebro a novos estímulos", explicou Carla Batista à BBC News Brasil, destacando que os problemas vividos por quem sofre do congelamento estão relacionados a uma parte do cérebro chamada região locomotora mesencefálica.

A neuroplasticidade cerebral se expressa, por exemplo, na formação de neurônios e sinapses, conexões entre eles.

"No treinamento específico para o congelamento da marcha, combinamos tarefas concomitantes, exercícios de coordenação, força e equilíbrio. Também trabalhamos o medo de cair, às vezes induzindo à queda — e os pacientes relataram não só melhora nos movimentos, mas também na percepção do medo."

Detalhes do estudo clínico


Os resultados dos testes com os 32 participantes, todos tratados na Faculdade de Medicina da USP, foram publicados mês passado no Movement Disorders, periódico de sociedade internacional dedicada ao Parkinson.

Carla Batista aparece com autora principal, ao lado de colegas da USP, da Universidade Federal do ABC, e também de universidades no exterior, fruto de períodos de estudo dela nos Estados Unidos. Ela fez parte do doutorado na Northwestern University e agora pós-doutorado na Oregon Health and Science University, nos dois casos com bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O estudo publicado no Movement Disorders é do tipo clínico randomizado controlado (RCT, na sigla em inglês) — que envolve pacientes (clínico), divididos aleatoriamente (randomizado) em grupos, um deles usando o tratamento sob teste. Os experimentos, nesse caso, foram realizados entre junho de 2018 e abril de 2019.

Pelos relatos dos participantes, o grupo que participou do treino específico apontou maior melhora do que o grupo que seguiu a fisioterapia tradicional no congelamento da marcha em si (melhora de 20% vs. melhora de 1%) e na qualidade de vida (melhora de 23% vs. piora de 9%).

Na ressonância magnética, foi possível observar também a reativação das áreas do cérebro relacionadas ao congelamento da marcha. O modelo de análise de imagens de ressonância magnética usado neste estudo foi desenvolvido por equipes da USP e de pesquisadores dos EUA e Inglaterra, conforme apresentado em um artigo anterior, de 2017.

Já exames — ou seja, uma avaliação técnica e objetiva, e não relatos dos pacientes —, indicaram melhora de 51% na frequência do congelamento da marcha entre os que passaram por tratamento específico (versus piora de 63% na terapia tradicional) e, na chamada preparação postural no início do passo, melhora de 58% versus piora de 12%, segundo o estudo.

A preparação postural é um indicador importante, pois o congelamento da marcha normalmente ocorre no início do passo ou na virada do corpo, possivelmente por anormalidades motoras e cognitivas na configuração que precede o movimento.

O que uma pessoa que tem congelamento da marcha pode fazer hoje?

Entre os sintomas de Parkinson, estão ainda rigidez nos músculos, lentidão nos movimentos corporais, tremores e perda de equilíbrio.

De acordo com Carla Batista, o congelamento pode durar de segundos a dois minutos. Há remédios e até uma cirurgia, de estimulação cerebral profunda, que são usados para tratar do congelamento da marcha — mas, segundo a pesquisadora, até hoje, os resultados destes tratamentos são considerados inconclusivos.

"Com nossa proposta de tratamento, estamos apostando em uma terapia de baixo custo — na comparação com uma cirurgia, por exemplo — e que é eficaz em modificar a doença, seja diminuindo, retardando ou até prevenindo o aparecimento do congelamento da marcha. No futuro, a terapia poderia ser incorporada pelo Sistema Único de Saúde, por exemplo", apontou.

Agora, um próximo passo previsto para testar o tratamento será fazer um estudo clínico com número maior de pessoas e, possivelmente, envolvendo pessoas que tenham Parkinson mas não congelamento da marcha. A ideia é verificar se o treino específico desenvolvido pela equipe e aplicado durante dois anos é capaz de prevenir o aparecimento do sintoma.

Enquanto o tratamento não passa por esta nova validação e diante das incertezas atuais sobre remédios e cirurgias existentes, Batista diz que o paciente que passar pelo congelamento deve respirar fundo e depois tentar levantar a ponta do pé, seguida pelo calcanhar. Depois de respirar fundo, a pessoa pode tentar também balançar o corpo, jogando-o de um lado para o outro, até que venha um "gatilho" que dispara o movimento do passo.

Graduada em educação física, Batista fez também seu doutorado na USP sobre o Parkinson — ela também testou um protocolo de exercícios em pacientes com quadros leves a moderados, mostrando que este foi superior à fisioterapia tradicional e ao uso de remédios no alívio de diversos sintomas motores e não motores, como a capacidade cognitiva. Já no trabalho atual, que resultou no artigo recém-publicado, ela e sua equipe focaram especificamente no congelamento da marcha e em pessoas com quadros mais severos.

Um estudo publicado em 2018 na revista científica Lancet estimou que, no mundo, 6,1 milhões de pessoas viviam com Parkinson em 2016. Para o Brasil, o número estimado foi de 128.836.

O número global aumentou desde 1990, quando havia cerca de 2,5 milhões de pessoas com a doença. Mas, desde então, não foi somente a dimensão quantitativa da doença que mudou.

"Antes, acreditava-se que o Parkinson afetasse somente indivíduos a partir da meia idade e na função motora — levando a músculos mais fracos, tremor… Hoje, entendemos que não se trata apenas de uma desordem motora, mas também cognitiva, gastrointestinal, cardiovascular… E temos evidências também de que pessoas acima dos 20 anos já podem ser afetadas", diz a pesquisadora.

Reprodução: BBC 
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