quinta-feira, 18 de abril de 2019

Doutoranda da UFRB detecta pela primeira vez vírus em abelhas nativas do Brasil

O Vírus das Asas Deformadas, responsável pelo massivo declínio de colônias de abelhas nos Estados Unidos e países europeus nas últimas décadas, foi detectado pela primeira vez em abelhas sem ferrão no Brasil, segundo um novo estudo publicado em janeiro deste ano na revista científica Journal of General Virology e premiado no Reino Unido. A descoberta é de autoria da doutoranda em Ciências Agrárias pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Flaviane Souza, em parceria com a Universidade de Salford.
A pesquisa envolveu a espécie de abelha nativa sem ferrão Melipona subnitida, popularmente conhecida como Jandaíra, e os resultados revelaram que 100% das colônias avaliadas possuíam o vírus deformador das asas das abelhas (DWV, devido à sigla em inglês). O estudo foi conduzido durante o período de maio de 2017 a dezembro de 2018 nos estados do Nordeste, a área de ocorrência natural da M. subnitida, e na ilha de Fernando de Noronha, onde estas abelhas foram introduzidas há 30 anos pela ação do homem e sobrevivem isoladas desde então.
“Este estudo fornece o primeiro relato para ocorrência do DWV em abelhas nativas brasileiras. Outros estudos já foram conduzidos aqui no Brasil e na Argentina com abelhas sem ferrão, sem, contudo, detectarem a presença viral. Agora podemos dizer que esse vírus é mundial”, diz Flaviane, que também atua na UFRB como Técnica de Laboratório na área de Biologia e é a principal autora do estudo. 
O vírus DWV teve seus primeiros registros na Ásia em meados dos anos de 1970 e de lá se espalhou pela Europa e América do Norte no inverno de 2006-2007, num fenômeno que ficou conhecido como CCD (Colony Collapse Disorder) ou Síndrome do Colapso de Desordem da Colônia. O declínio das abelhas iniciou-se com a associação do DWV com o ácaro Varroa destructor, um gênero que se alimenta das larvas de abelhas, e, de acordo com os especialistas, transformou-se numa pandemia mundial por meio do comércio e transporte de abelhas para a polinização de culturas.
“Apesar dos números alarmantes, não tínhamos registros desse vírus ou suas formas de danos no Brasil. Em geral, as colônias brasileiras sofrem perdas devido à falta de manejo, desmatamento, avanço da agricultura, uso de pesticida, dentre outros”, explica Flaviane. O objetivo de sua pesquisa foi, então, descobrir se havia a ocorrência do DWV nas abelhas nativas no país, quais as variantes (tipos A, B e C) e sua carga viral. Segundo a bióloga, foram escolhidas abelhas típicas do Nordeste, a fim de contribuir com o fortalecimento das espécies regionais.
Ela usou a técnica da transcriptase reversa com PCR em tempo real, que acessa o material genético do vírus que está dentro da abelha e amplia sua quantidade para a realização dos testes. Como resultados foram encontrados os tipos virais A e C, estando a variante B ausente. Para a área amostral do continente, a variante tipo A foi a dominante, sendo ultrapassada pelo tipo C apenas em alguns lugares. Para a ilha, o tipo A foi sempre dominante, prevalecendo superior a 90%. “A dominância do tipo A reflete a mesma situação encontrada nos EUA, embora lá o tipo B pareça estar substituindo lentamente as demais”, afirma Flaviane. “Já o tipo C foi recentemente descoberto, então pouco se conhece ainda sobre esta variante”, explica.
O professor Stephen J. Martin, da Universidade de Salford, um dos colaboradores da pesquisa e uma das referências mundiais em insetos sociais, como abelhas, cupins e formigas, relata que, até o momento, mais de 60 espécies de insetos e cinco espécies de aranhas e ácaros foram infectadas com o vírus DWV associado à abelha. “A pesquisa de Flaviane detectou que existem abelhas no Brasil infectadas com a rara cepa C do vírus, que acredita-se ser mortal para esta espécie. Então, agora, é importante determinar se o DWV está causando impacto na flora e fauna local, reduzindo o número de polinizadores”, diz.
Os primeiros resultados do estudo foram descritos no artigo Occurrence of deformed wing virus variants in the stingless bee Melipona subnitida and honey bee Apis mellifera populations in Brazilpublicado na edição de janeiro do Journal of General Virology, da Microbiology Society. A pesquisa com o título Detection of Deformed Wing Virus (DWV) in Brazilian stingless bees também foi premiada em primeiro lugar na categoria 3 Minutes Thesis Competition durante a X Conferência da Associação Brasileira de Estudantes de Pós-Graduação e Pesquisadores no Reino Unido (Abep-UK), evento realizado na Embaixada do Brasil em Londres.
O pró-reitor de Pesquisa, Pós-Graduação, Criação e Inovação da UFRB e orientador do estudo, professor Carlos Alfredo Lopes de Carvalho, comemora estes resultados que contribuem no diagnóstico do atual estado da saúde das abelhas sociais no Brasil, notadamente as patologias associadas aos meliponíneos. Além disso, Carvalho acredita que o estudo coloca a Universidade em posição de destaque na linha de pesquisa em saúde das abelhas, na qual outros trabalhos estão sendo realizados no âmbito do Grupo de Pesquisa Insecta do Centro de Ciências Agrárias, Biológicas e Ambientais (CCAAB) da UFRB, tanto no Programa de Ciências Agrárias quanto no Programa de Ciência Animal.
“A parceria com o professor Stephen J. Martin, viabilizada por meio do programa de Professor Visitante Especial (PVE) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), possibilitou a criação desta linha de pesquisa que já beneficiou a formação de diversos estudantes de graduação e pós-graduação, além de estágios pós-doutorais para pesquisadores e de estágio sanduíche para doutorandos da UFRB na Universidade de Salford. Trata-se de um projeto exitoso que possibilitou a internacionalização dos docentes e discentes da UFRB envolvidos, como é o caso da Flaviane”, afirma.
O trabalho com o vírus DWV também contou com a orientação da professora da UFRB, Maria Angélica Costa, especialista em melhoramento genético e biotecnologia, e teve ainda o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do CNPq, pelos respectivos programas de bolsas de Doutorado Sanduíche no Exterior. A defesa da tese de Flaviane está prevista para julho deste ano no Programa de Pós-Graduação em Ciências Agrárias da UFRB.
Reprodução: UFRB

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domingo, 14 de abril de 2019

Vírus é esperança para tratamento de retinoblastoma, tipo de câncer no olho

O retinoblastoma é um tipo de câncer ocular que começa na parte de trás do olho (retina) e afeta principalmente as crianças. Apesar de ser muito rara no Brasil (menos de 15 mil casos por ano), o tratamento daqueles que são diagnosticados pode ter um alto custo.  O tumor que "brota" na retina é fatal se não for tratado. 



No entanto, a quimioterapia pode causar perda permanente da visão, e os pacientes às vezes precisam de cirurgia para remover um ou ambos os olhos.
  
Mas uma nova pesquisa traz esperança para o tratamento agressivo. Em artigo publicado no periódico científico Science  Translational  Medicine, os cientistas relatam que um vírus parece combater esse câncer em animais -- e até diminui o tumor em crianças --, sem gerar efeitos colaterais graves.  Para os testes em animais, a equipe usou o adenovírus, que normalmente causa apenas infecções respiratórias leves nas pessoas. 

Ele foi geneticamente modificado, de modo que só podia se reproduzir dentro de células nas quais a via do retinoblastoma tinha um mau funcionamento. Para determinar se tal vírus seria seguro, os cientistas injetaram nos olhos de coelhos sem o tumor. 

Em seguida, os pesquisadores injetaram o vírus em camundongos com câncer nos olhos. Os olhos dos roedores que receberam o vírus permaneceram duas vezes mais intactos do que aqueles que não receberam tratamento.

Testes em humanos  

Com base nesses resultados, os pesquisadores começaram um ensaio clínico para testar se o vírus é seguro em crianças com retinoblastoma e que não responderam à quimioterapia ou ao tratamento com radiação. Dois pacientes receberam o vírus até agora.

Uma das crianças precisou remover um olho porque seu interior ficou muito nublado para monitorar o tumor. No entanto, a fatalidade ajudou os cientistas a notarem sinais preliminares de que o vírus está atacando os tumores.  

Uma análise do olho mostrou que o vírus estava se reproduzindo em algumas células tumorais. Eles não descobriram nenhuma evidência de que o vírus estivesse crescendo em células normais do olho ou danificando a retina.

Uma análise do olho mostrou que o vírus estava se reproduzindo em algumas células tumorais. Eles não descobriram nenhuma evidência de que o vírus estivesse crescendo em células normais do olho ou danificando a retina. 

No segundo paciente, o vírus parecia estar encolhendo e destruindo fragmentos de tumor, que são perigosos por poder se instalar na retina, originando novos tumores. Apesar dos primeiros resultados serem promissores, vários outros testes ainda precisam ser realizados antes que a técnica origine um novo tipo de tratamento.


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terça-feira, 9 de abril de 2019

Droga antienvelhecimento que mata células idosas passa em primeiro teste humano

Uma estratégia anti-envelhecimento passou em seu primeiro teste no início deste ano, depois que 14 voluntários tomaram drogas para matar células tóxicas em seus corpos.
O pequeno estudo em pessoas com doença pulmonar, relatado em janeiro, está sendo anunciado como a primeira tentativa de empregar drogas para limpar o corpo de células envelhecidas e tóxicas. Alguns pesquisadores acreditam que essa estratégia poderia ser empregada em pessoas saudáveis ​​para retardar o envelhecimento.
“Isso nos dá, em certa medida, uma luz verde para testes maiores”, diz James Kirkland, professor da Mayo Clinic que ajudou a liderar o estudo, realizado em clínicas no Texas e na Universidade Wake Forest a partir de 2016.
Os pacientes tomaram duas pílulas que Kirkland e seus colegas acreditavam que poderiam se livrar seletivamente das células envelhecidas: o dasatinibe, uma droga para a leucemia, e um suplemento chamado quercetina.
É cedo para drogas destinadas a retardar o envelhecimento, e alguns respiraram aliviados que os pacientes neste primeiro estudo não sofreram efeitos colaterais graves das drogas. “Minha preocupação é que não devamos pular nisso rápido demais, porque se houver um erro ou algo que não entendemos, isso pode definir o campo de volta”, diz  Judith Campisi, professora do Instituto Buck, na Califórnia.
Este foi um teste piloto – nem mesmo na primeira fase de uma sequência de três etapas de testes necessários para obter a aprovação da Food and Drug Administration dos EUA. Então, oficialmente, não mostrou nada sobre o envelhecimento.
Todos os 14 pacientes sofriam de uma doença pulmonar fatal, difícil de tratar, chamada fibrose pulmonar idiopática, o que explica por que eles estavam dispostos a participar do experimento. Os médicos descobriram que nove doses das duas pílulas ao longo de três semanas pareciam melhorar a capacidade dos pacientes de andar um pouco mais na mesma quantidade de tempo e várias outras medidas de bem-estar.
Uma bolha de entusiasmo comercial foi construída em torno da ideia de que o envelhecimento poderia ser adiado, ou seus efeitos temperados, usando tratamentos com drogas. Uma empresa chamada Unity Biotechnology, de Brisbane, na Califórnia, está desenvolvendo dois medicamentos senolíticos, o primeiro dos quais está em um ensaio clínico de fase 1 para osteoartrite – está sendo injetado nos joelhos das pessoas. Campisi é co-fundador da Unity, e Kirkland também detém ações da empresa pública, que atualmente vale cerca de meio bilhão de dólares.
Essas drogas visam as células senescentes, que esgotaram sua capacidade de se dividir, mas permanecem capazes de liberar uma potente mistura de sinais químicos. “Acredita-se que essas células e as substâncias que elas produzem estão envolvidas no processo de envelhecimento”, diz Nicolas Musi, que participou do novo estudo e dirige o Instituto Sam e Ann Barshop para Estudos de Longevidade e Envelhecimento na Universidade do Texas. Austin. “A ideia é que remover essas células pode ser benéfico para promover o envelhecimento saudável e também prevenir doenças do envelhecimento.”

Na fibrose pulmonar idiopática, células senescentes se acumulam nos pulmões. Em testes anteriores em camundongos, uma combinação de dasatinibe e quercetina, que é um pigmento de planta, mostrou eliminar essas células e prolongar o tempo em que os animais permaneceram saudáveis ​​(embora não os fizessem viver mais).
“É um vislumbre do que pode acontecer enquanto colocamos esses agentes em humanos”, diz Kirkland. Ele adverte os entusiastas antienvelhecimento de tomar as pílulas por conta própria (a quercetina já está disponível em lojas on-line de fornecedores de suplementos com nomes como LifeExtension). “Quando vamos de ratos para as pessoas, é aí que vemos as coisas darem errado”, diz Kirkland. “As pessoas simplesmente não deveriam estar tomando essas drogas fora do contexto de um estudo clínico supervisionado”.
Nem tudo sobre células senescentes é ruim. Acredita-se que as células e suas secreções sejam importantes durante o desenvolvimento de embriões, no momento do trabalho de parto, na cicatrização de feridas e na formação de tecido cicatricial. “Você nunca iria querer administrar senolíticos a uma mulher grávida”, diz Campisi. “Agora está ficando claro que você precisa dessas secreções para que certas coisas boas aconteçam. Quando as secreções se tornam crônicas, ao contrário de periódicas ou episódicas, é quando começa a dirigir patologia.”
Os pesquisadores estão iniciando seus testes em pessoas com doença grave, mas esperam explorar se agentes senolíticos podem ser administrados a pessoas saudáveis, como uma limpeza dental semestral para remover a placa bacteriana. “Você reduz o peso das células senescentes, mas não precisa chegar a zero”, imagina Campisi. “E então você sai das drogas.”
Musi diz que ele e Kirkland e seus colaboradores começaram um teste em mais 15 pacientes com problemas no pulmão, e a equipe da Mayo está testando a combinação de drogas em 20 pacientes com doença renal crônica. “Se vemos sinais de eficácia e não encontramos efeitos colaterais muito ruins, tentaremos chegar a pessoas com condições cada vez menos ameaçadoras à vida”, diz Kirkland. “Se tudo der certo.” [MIT Technology Review]
Reprodução: Socientifica
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sábado, 6 de abril de 2019

Falência de gráfica que imprime Enem coloca exame em risco

O anúncio de falência da gráfica RR Donnelley, que desde 2009 imprime as provas do Enem, coloca em risco a realização do exame neste ano. O Enem ocorre em novembro e, para cumprir o cronograma, a impressão das provas deve ocorrer até maio, no máximo. O trabalho realizado para o Enem não é feito por qualquer gráfica, uma vez que a operação demanda reforçado sistema de segurança e tem entraves logísticos.

Colabora para a insegurança a falta de liderança atual dentro do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pelo exame. Na semana passada, o presidente do instituto, Marcus Vinicius Rodriguesfoi demitido pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez. 

Já o chefe da da diretoria de avaliação da Educação Básica dentro do Inep, Paulo Teixeira, pediu demissão em solidariedade ao demitido. Essa é a diretoria que cuida do Enem. Questionado, o Inep não se manifestou até as 17h sobre a falência da gráfica, revelada pelo jornal "O Estado de S. Paulo".



De forma reservada, servidores e ex-funcionários do instituto falaram à reportagem que há grande preocupação com as indefinições e com a ausência de uma pessoa capaz de liderar essa operação.

No ano passado, o Enem recebeu 5,5 milhões de inscrições. No total, foram impressas 11 milhões de provas. O resultado é a porta de entrada para praticamente todas as universidades do país.

A gráfica assumiu a impressão do Enem 2009, depois que a prova vazou naquele mesmo ano. O sistema de segurança e logística foi aprimorado ao longo dos anos, ao mesmo tempo em que órgãos de controle cobravam a realização de licitação para o serviço.

A RR Donnelley tem contrato com o Inep para a realização da prova até este ano, segundo a Folha de S.Paulo apurou. A ideia dentro do Inep era publicar um novo pregão neste ano, mas a medida não andou. Há um processo de licitação envolvendo outras avaliações educacionais, como o Saeb, que também segue parado — este por causa de questionamentos de empresas concorrentes. 

Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), João Scortecci, a RR Donnelley não é a única empresa capaz de atender às demandas do Inep, mas o número de companhias aptas não passa de cinco no Brasil. "Imprimir é fácil, o difícil é a logística. Exige segurança, fiscalização e muito bom senso", diz Scortecci.

Além da impressão das provas, ocorre na gráfica toda a organização das provas antes do envio para os locais de prova, como a separação das malotes por cidade. A Polícia Federal ainda faz com antecedência uma vistoria no local para garantir a segurança do processo.

O pedido de falência da RR Donnelley foi protocolado no domingo (31) na 1ª Vara Cível de Osasco. Em comunicado, a empresa afirma que "entre os fatores que levaram o grupo a tomar esta medida estão as atuais condições de mercado na indústria gráfica e editorial tradicional, que estão difíceis em toda parte, mas especialmente no Brasil".

Diz ainda que recentemente perdeu um de seus principais clientes e registrou uma drástica redução no volume de trabalho contratado.

De acordo com a nota, a empresa entrará em contato com o sindicato e avaliará a possibilidade de rescindir os contratos de trabalho nos próximos dias, o que permitirá aos funcionários ter acesso aos valores do FGTS e ao seguro-desemprego.
Falência é novo golpe no mercado editorial.

A notícia da falência é mais um golpe em um mercado editorial que atravessa uma crise profunda, com a recuperação judicial da Saraiva e da Livraria Cultura. A RR Donnelley, uma das principais do mundo, que atuava há mais de 25 anos no Brasil, era a principal gráfica atender grandes editorias, como os grupos Ediouro e Companhia das Letras.

Ela era uma das preferidas para produção de obras em capa dura ou boxes de luxo, como a coleção Clássicos de Ouro, da Nova Fronteira. Os livros que a Donnelley tinha em produção não serão entregues, o que deve prejudicar o calendário de lançamentos de grandes casas.

A notícia pegou de surpresa o mercado editorial. A Sextante tentou entregar na manhã desta segunda um carregamento de 70 toneladas de papel para a impressão de um lançamento, mas os entregadores da Suzano, a fornecedora, já encontraram a gráfica fechada.

As gráficas vêm sofrendo os efeitos da crise do setor editorial não só pela situação delicada das duas principais redes do país, mas também pela redução nas compras de livros pelo Ministério da Educação desde o segundo mandato de Dilma Rousseff (PT) — o governo é responsável por cerca de um terço de todo o faturamento anual do setor.

Em momentos assim, a primeira medida dos editores é renegociar preços e prazos de pagamento com as gráficas.

Entre as editoras, porém, a decisão da multinacional ainda parece mal explicada -além de ser uma medida incomum uma empresa pedir sua falência sem antes tentar uma recuperação judicial. Além disso, a Donnelley pertence a um grupo robusto, com atuação em vários países.

Para Marcos Pereira, presidente da Sextante e do Sindicado Nacional dos Editores de Livros (Snel), a crise do setor não parece o suficiente para justificar uma decisão do tipo.

"É uma gráfica mundial. Não consegui entender a motivação desse pedido de autofalência, deve haver algo mais sério do que apenas um problema de fluxo de caixa. Isso cria uma confusão muito grande, porque toda a produção fica presa. Neste momento tudo lá está lacrada", diz ele.

Reprodução: Folhape
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quarta-feira, 3 de abril de 2019

Emissões de carbono quebram o recorde em um retrocesso global devastador

Especialistas divulgaram resultados sombrios, apontando que as emissões de dióxido de carbono ainda estão aumentando, mas a crescente demanda mundial por energia levou a emissões mais altas do que nunca.


A demanda por energia em todo o mundo cresceu 2,3% no ano passado, marcando o aumento mais rápido em uma década, de acordo com o relatório da Agência Internacional de Energia. Para atender a essa demanda, em grande parte alimentada por uma economia em expansão, os países recorreram a uma série de fontes, inclusive renováveis.
Mas nada preenchia o vazio como os combustíveis fósseis, que satisfaziam quase 70% da demanda crescente de eletricidade, segundo a agência, que analisa as tendências de energia em nome de 30 países membros.
Em particular, uma frota de usinas de carvão relativamente jovens localizadas na Ásia liderou o caminho para um recorde de emissões de usinas de carvão – ultrapassando 10 bilhões de toneladas de dióxido de carbono “pela primeira vez”, a agência disse.
Como resultado, as emissões de gases de efeito estufa provenientes do uso de energia – de longe a sua maior fonte – aumentaram em 2018, atingindo um recorde de 33,1 bilhões de toneladas.
As emissões apresentaram um crescimento de 1,7%, bem acima da média desde 2010. O crescimento das emissões globais em 2018 foi “equivalente ao total de emissões da aviação internacional”, segundo o órgão.
O relatório ressalta uma verdade inquietante sobre os esforços coletivos do mundo para combater a mudança climática: mesmo que as energias renováveis ​​se expandam rapidamente, muitos países – incluindo os Estados Unidos e a China – ainda estão se voltando para combustíveis fósseis para satisfazer a crescente demanda por energia.

A China, por exemplo, satisfez uma demanda por mais energia no ano passado com uma nova geração de renováveis. Mas dependia muito mais de gás natural, carvão e petróleo. Na Índia, cerca de metade de toda a nova demanda foi similarmente atendida por usinas a carvão.
Nos Estados Unidos, por outro lado, o carvão está em declínio – mas a maior parte do aumento da demanda por energia neste país foi, no entanto, alimentada pela queima de gás natural, e não pela energia renovável.
O gás natural emite menos dióxido de carbono do que o carvão quando é queimado, mas ainda é um combustível fóssil e ainda causa emissões significativas.
Há algumas pequenas boas notícias no novo relatório, na medida em que, como as energias renováveis ​​e o gás natural cresceram, o carvão tem uma participação menor no total de energia.
No entanto, o fato de que ainda está crescendo contradiz fortemente o que os cientistas disseram sobre o que é necessário para conter o aquecimento do clima.
Em um relatório importante do ano passado, o Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas descobriu que as emissões globais teriam que ser reduzidas quase pela metade até 2030, para preservar a chance de manter o aquecimento do planeta a 1,5 grau Celsius (ou 2,7 graus Fahrenheit).
Isso exigiria reduções anuais extremamente rápidas nas emissões – mas, em vez disso, o mundo ainda está registrando altos recordes.
E quando se trata de uso de carvão, o mesmo relatório descobriu que, para limitar as temperaturas a 1,5 ° C, teria que diminuir em até 78% em pouco mais de 10 anos. Mais uma vez, as emissões de carvão ainda estão subindo.
“O que é desanimador é que as emissões nos EUA e na Europa também estão subindo. Alguém tem que diminuir significativamente suas emissões para que tenhamos alguma esperança de cumprir os compromissos de Paris.”
Como resultado, o otimismo do início desta década diminuiu bastante. Os esforços internacionais para combater as mudanças climáticas têm lutado para manter o ímpeto e o governo dos EUA passou por uma reversão de prioridades.
Reprodução: Socientifica
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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Como seu intestino pode ajudar seu cérebro

O intestino de um paciente pode não ser o lugar mais óbvio para buscar as origens da depressão. Mas esse foi o palpite do químico britânico George Porter Phillips no início do século 20.

Enquanto percorria as enfermarias do notório Bethlem Royal Hospital, em Londres, Phillips observara que seus pacientes com melancolia frequentemente sofriam de constipação severa, junto com outros sinais de "entupimento geral dos processos metabólicos" - incluindo unhas quebradiças, cabelos sem lustro e tez amarelada.
Inicialmente, poderíamos pensar que esses problemas fisiológicos foram causados pela depressão, mas e se o contrário fosse verdadeiro? Phillips se perguntou, então, se seria possível aliviar a depressão tratando o intestino.
Para provar essa hipótese, ele alimentou os pacientes com uma dieta de baixo teor calórico, sem carnes, exceto peixes. Também lhes ofereceu uma bebida láctea fermentada conhecida como kefir, que contém as bactérias lactobacillus, um micróbio "amigável" que já era conhecido por facilitar a digestão.
Surpreendentemente, funcionou. Dos 18 pacientes testados por Phillips, 11 foram curados completamente. Outros dois apresentaram melhora significativa.
Foi a prova que faltava de que nossas bactérias intestinais podem ter uma profunda influência sobre nosso bem-estar mental.

Poder da flora intestinal sob análise

Uma série da BBC Future analisou várias afirmações sobre o poder da nossa flora intestinal de causar cura ou dano. Mas a ligação entre esses micro-organismos e nossa saúde mental talvez seja a mais difícil de ser observada. Como esses seres microscópicos que se alimentam de restos da nossa digestão poderiam afetar nosso cérebro?

Algumas dessas descobertas foram superestimadas. Mas mais de um século depois do experimento inicial de Phillips, a relação entre intestino-cérebro é consideravelmente sólida.
"A influência dos micróbios em nossa saúde mental não está mais em discussão", diz Jane Allyson Foster, cujo laboratório na Universidade McMaster, no Canadá, lidera pesquisas nessa área. E isso significa que podemos curar o cérebro através de nossa barriga. "Há o potencial tanto para o desenvolvimento de novos tratamentos quanto para a medicina de precisão."
Foster destaca que um intestino não saudável é apenas uma das muitas possíveis causas de doença mental. Em outras palavras, apenas uma parcela dos pacientes vai responder bem aos novos tratamentos "psicobióticos". Mas para aqueles que sofrem de um desequilíbrio em suas bactérias intestinais, as novas terapias podem trazer um alívio muito necessário.
Apesar dos primeiros estudos, incluindo o de Phillips, a ideia de que o intestino pudesse influenciar nossa saúde mental caiu em desgraça durante grande parte do século 20, e fortes evidências para esse elo misterioso só emergiram novamente nas últimas duas décadas.
Um dos mais impressionantes experimentos modernos foi feito por cientistas da Universidade de Kyushu, no Japão, em 2004.
Eles demostraram que camundongos "sem micro-organismos" - criados em condições esterilizadas para que não tivessem micróbios em seus corpos - mostraram maiores flutuações nos hormônios corticosterona e ACTH, ambos conhecidos por refletirem os níveis de estresse. Isso sugeriu que as bactérias intestinais de camundongos saudáveis estavam, de alguma forma, moldando seu perfil hormonal.
Os pesquisadores então deram a um grupo de camundongos sem germes bactérias lactobacillus - a classe de bactérias "amigáveis" que Phillips também usou em seus pacientes melancólicos. Embora esses ratos ainda apresentassem uma resposta mais alta ao estresse do que os ratos que nunca haviam sido criados livres de germes, suas respostas ao estresse eram menos pronunciadas do que os ratos sem nenhum micróbio no intestino.


Existem até alguns sinais de que comportamentos depressivos podem ser transmitidos através das espécies - do humano ao camundongo - devido aos micróbios no intestino.
Em um outro estudo, pesquisadores chineses de Chongqing coletaram uma amostra da flora intestinal de pacientes com Transtorno Depressivo Maior e a inseriu em camundongos sem germes.
Posteriormente, verificaram que esses camundongos desistiam mais rápido durante um exercício de natação "forçada" - um comportamento que muitas vezes é considerado análogo à letargia e ao desalento, sintomas típicos da depressão. E quando os ratos foram colocados em uma caixa, gastaram menos tempo explorando as áreas centrais e ficaram mais perto da borda, onde se sentiam mais seguros.
"O que surpreende é que os animais que receberam a flora intestinal 'depressiva' se comportaram de forma 'depressiva'", explica Julio Licinio, da New York Upstate Medical University, que foi coautor do artigo. "Se você mudar a flora intestinal, você muda o comportamento."
Só podemos tirar algumas conclusões desses estudos em animais, é claro - mas elas são respaldadas por estudos epidemiológicos que analisam um grande número de participantes humanos (o mais recente foi publicado em 4 de fevereiro de 2019). Essas pesquisas mostraram de maneira consistente que variações na flora intestinal coincidem várias doenças mentais, incluindo depressão e ansiedade.
Nenhuma espécie isolada parece ser responsável por esses efeitos; muito mais importante seria a proporção geral das diferentes famílias de micróbios. Sendo assim, as floras intestinais de pessoas deprimidas e ansiosas indicam menos diversidade do que a dos indivíduos sem problemas de saúde mental.
Surpreendentemente, um dos trabalhos recentes de Licinio revelou que a esquizofrenia está associada a uma flora intestinal empobrecida. Quando amostras de pacientes que sofrem do transtorno foram implantadas em camundongos livres de germes, o pesquisador pôde verificar mudanças características na atividade cerebral que são marca registrada do distúrbio.

Explicações biológicas

Esses efeitos podem surgir de muitas formas.
Certas espécies de micróbios intestinais podem proteger a parede intestinal, ajudando a manter sua membrana mucosa que impede que o conteúdo seja derramado na corrente sanguínea. Sem essa barreira, você pode sofrer de um "intestino poroso", síndrome que desencadeia, entre outras coisas, a liberação de citocinas pró-inflamatórias, proteínas que aumentam o fluxo sanguíneo ao redor dos locais de infecção e regulam a resposta imune do corpo.
Embora essa reação seja crucial para combater a infecção, essas citocinas também podem levar ao mau humor e à letargia. É por isso que muitas vezes nos sentimos cansados quando estamos doentes - e a curto prazo, essa reação nos ajuda a poupar a energia de que o nosso corpo necessita para encontrar a infecção. Mas a longo prazo, pode levar à depressão.
Os micróbios do intestino também influenciam a forma como digerimos e metabolizamos os precursores de neurotransmissores importantes, como a serotonina e a dopamina. Nossa flora intestinal tem até uma linha direta de comunicação com o cérebro, através do nervo vago (ou pneumogástrico), que possui receptores perto do revestimento intestinal que permitem controlar a nossa digestão. Os micróbios no intestino podem, portanto, liberar mensageiros químicos que alteram a resposta do nervo vago - e, consequentemente, a atividade do cérebro.
"Especificamente no intestino, há muitas oportunidades para as bactérias se comunicarem com os sistemas hospedeiros, incluindo o sistema nervoso", diz Foster. "É um espaço muito dinâmico, interativo e rico".
Mas não se trata de uma via de mão única. Assim, a atividade cerebral também pode influenciar a composição da flora intestinal. O estresse pode, por si só, aumentar a inflamação, por exemplo, o que afetaria os micróbios em nosso intestino. O resultado seria um ciclo vicioso.

Novos caminhos

Foster diz que a pesquisa neste campo está acelerando rapidamente, conduzida por cientistas ligados a universidades e empresas.
Em última análise, esses pesquisadores esperam que suas descobertas levem a um novo tipo de tratamento para doenças como a depressão.
Os antidepressivos existentes hoje funcionam alterando o equilíbrio de substâncias químicas como a serotonina no cérebro, mas não são eficazes para todos os pacientes: apenas dois em cada dez que tomam antidepressivos apresentam sinais de melhora, além do efeito placebo.
E, embora ajudem muitos pacientes, terapias da fala, como a terapia cognitivo-comportamental, são igualmente imprevisíveis. Como resultado, muitos pacientes não são tratados ou lutam para encontrar um tratamento adequado.
Algumas tentativas - como o estudo de Phillips em 1910 - alimentaram pacientes com bebidas fermentadas, como o kefir, que podem introduzir no intestino bactérias e proteínas que são conhecidas por serem benéficas à digestão, ou fibras solúveis conhecidas como "prebióticos", que ajudariam a refazer nossa flora intestinal.
Infelizmente, muitos desses estudos tendem a ser pequenos, com poucos participantes, e seus resultados foram ambivalentes: em alguns estudos, as intervenções reduziram os sintomas com sucesso; em outros estudos, provaram não ser melhores do que um tratamento com placebo.
Uma explicação, segundo Foster, é que os estudos fracassados não se focaram em pacientes que se beneficiariam mais com esse tipo de tratamento. Afinal de contas, há muitas causas de depressão, e embora problemas na flora intestinal possam ser a causa subjacente da depressão ou ansiedade de algumas pessoas, em outros, o gatilho pode ser bem diferente.
Para eles, é improvável que uma bebida probiótica faça uma grande diferença em seus sintomas.
Para complicar ainda mais, o microbioma de cada um de nós é único - assim, qualquer tratamento que afete a flora intestinal deve levar em conta essas diferenças. No geral, se compararmos o interior dos intestinos de dois indivíduos, o grau de semelhança é de apenas 10%.
Por esse motivo, ela acha que precisamos encontrar maneiras mais sofisticadas de ajustar o tratamento ao paciente. "É aí que o eixo intestino-cérebro vai nos ajudar, na medicina de precisão." A esperança, diz Foster, é "mapear 'biótipos' ou grupos de indivíduos que compartilham de uma determinada biologia que pode estar determinando seus sintomas".
Nesse sentido, seria recomendável testar se um paciente tem inflamação alta ou baixa antes de decidir sobre o tratamento mais adequado para ele.
Licinio também se mantém cautelosamente otimista de que pesquisas futuras vão identificar terapias voltadas para eixo intestino-cérebro. Ele diz que os significativos efeitos colaterais dos antidepressivos limitaram o desenvolvimento de novos tratamentos farmacêuticos - mas essa abordagem poderia evitar esses problemas. "Você não está adulterando o cérebro", diz ele, "então, acho que qualquer efeito colateral que você tenha será menos problemático".

Reprodução: G1
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