segunda-feira, 6 de julho de 2020

Médicos brasileiros anunciam paciente que está há 17 meses sem vírus HIV

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontam caminho promissor para eliminação do vírus causador da síndrome da imunodeficiência adquirida



Após participar de ensaios de um tratamento desenvolvido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um paciente não identificado que conviveu com o HIV por pelo menos sete anos está há 17 meses sem sinais do vírus causador da síndrome da imunodeficiência adquirida (aids). Há um ano e meio, ele parou de tomar os medicamentos contra a doença e, desde então, segue sem o microrganismo no corpo, relata reportagem exclusiva da CNN Brasil.

O paciente participou de um estudo liderado pelo infectologista Ricardo Sobhie Diaz e mostra que os cientistas brasileiros estão no caminho certo da cura para a síndrome. Segundo o médico, o vírus não foi detectado no corpo do paciente nem mesmo após passar por exames de alta precisão de diagnóstico. O número de anticorpos que combatem o HIV, que são usados como parâmetro para descobrir se uma pessoa contraiu o vírus ou não, também tem caído progressivamente, "o que é uma evidência de que o vírus pode não estar mais ali", disse Diaz, em entrevista à emissora

Ainda assim, o infectologista alerta que é cedo falar em cura e que há a possibilidade o vírus voltar a se manifestar, portanto, o paciente segue em acompanhamento.

Pesquisas anteriores

Os estudos coordenados por Diaz trabalham em duas frentes para combater o vírus HIV: a primeira utiliza medicamentos que eliminam o microrganismo durante sua replicação e células infectadas (mesmo que o vírus esteja adormecido nelas); e a segunda visa o desenvolvimento de uma vacina que leve o sistema imunológico a reagir contra as células doentes que os fármacos não conseguiram eliminar.

O paciente noticiado foi um dos 30 voluntários com carga viral indetectável e sob tratamento padrão que participaram de um dos testes do estudo, cujos primeiros resultados foram anunciados em 2018. Na época, os voluntários foram divididos em seis grupos e receberam diferentes combinações de remédios que eliminam o vírus, além do coquetel de antirretrovirais usado no tratamento padrão.

O subgrupo que apresentou os melhores resultados à época foi o de pacientes que receberam dolutegravir e maraviroc, aliados à nicotinamida (uma forma de vitamina B3 que impediu que o HIV se escondesse nas células) e à auranofina (que revelou potencial para encontrar células infectadas e matá-las).

Além disso, para fortalecer a imunidade dos voluntários, os pesquisadores também criaram uma vacina personalizada de células dendríticas (um tipo de glóbulo branco que nos protege de antígenos), baseada em monócitos (células de defesa) e peptídeos do vírus do próprio paciente. Assim, o próprio organismo pode aprender a detectar e destruir células infectadas, ajudando a eliminar o HIV.

Em 2018, Diaz havia explicado em nota quais seriam os próximos passos do estudo. “Somente após as análises de sangue e das biópsias do intestino reto desses pacientes vacinados é que partiremos para o desafio final: suspender todos os medicamentos de um deles e acompanhar como seu organismo irá reagir ao longo dos meses ou, até mesmo, dos anos”, disse. “Caso o tempo nos mostre que o vírus não voltou, aí sim, poderemos falar em cura.”

Reprodução: Revista Galileu
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domingo, 5 de julho de 2020

Coronavírus: imagens microscópicas revelam ’tentáculos’ nas células infectadas



Se a devastação causada pelo coronavírus no mundo é mais do que conhecida, o que ele faz dentro do corpo e em nível microscópico ainda é uma área carente de respostas.

Responder a isso é crucial não só para a produção de conhecimento científico sobre a doença como também para o desenvolvimento de medicamentos potencialmente capazes de contê-la.

Uma equipe internacional de cientistas que vem explorando a atuação do vírus dentro do corpo descobriu algumas pistas de como o Sars-Cov-2 infecta células — e obteve também imagens disso.

A descoberta mais surpreendente é a de que as células humanas infectadas com o coronavírus sofrem uma transformação "sinistra".

Seguindo as instruções do vírus, as células desenvolvem filopódios — filamentos longos, semelhantes a tentáculos. Estas protuberânciais não são muito comuns, mas já foram observadas em outros vírus, como o vírus de Marburg.

Nestes casos conhecidos, foi observado que os vírus recorrem a esses tentáculos tanto para sair da célula afetada quanto para alcançar células próximas e, assim, acelerar a infecção.

"O que descobrimos é que o vírus induz a célula a criar essas protuberâncias, que são como galhos longos ou tentáculos", explicou à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, um dos autores da pesquisa, o professor Pedro Beltrao, pesquisador do Instituto Europeu de Bioinformática do Laboratório Europeu de Biologia Molecular (EBI-EMBL), em Cambridge, Inglaterra.

A pesquisa, que teve parte de seus resultados publicada no periódico Cell, teve também a colaboração de pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco e da Escola Icahn de Medicina.

Mount Sinai (ambas nos EUA), do Instituto Pasteur na França e da Universidade de Freiburg na Alemanha.

"Em outros vírus, já foi observado que (essas protuberâncias) desempenham um papel na rápida disseminação da infecção, porque elas ajudam o vírus a invadir células próximas."

Embora o papel dos filopódios na infecção não tenha sido demonstrado neste estudo, os pesquisadores acreditam que existe uma "alta probabilidade" de que o Sars-Cov-2 também esteja usando esses tentáculos para acelerar sua propagação.

O que essa pesquisa já conseguiu foi produzir imagens impressionantes da célula infectada, mostrando-a como nunca vista antes, inclusive com as estranhas estruturas dos filopódios.

As fotografias, capturadas por Elizabeth Fischer, da Unidade de Microscopia dos Laboratórios Rocky Mountain, nos Estados Unidos, e cientistas da Universidade de Freiburg, revelam como o vírus brota dos filopódios e se expande através de uma ramificação.

Maquinário celular 'violado' pelo vírus

Os pesquisadores também descobriram que o vírus, além de causar a criação desses "tentáculos", provoca outros comportamentos atípicos dentro da célula infectada.

"O principal objetivo do estudo era tentar encontrar drogas que impedissem o vírus de fazer alterações na célula humana", explica Pedro Beltrao. "Mas, para conseguir isso, primeiro precisamos entender como o vírus controla os mecanismos da célula para realizar sua própria replicação."

Um vírus que entra no corpo humano "quer" sobretudo criar cópias de si mesmo para espalhar a infecção.

Mas o vírus não pode criar essas cópias por conta própria. Ele precisa entrar em uma célula, assumir o controle do maquinário celular e manipulá-lo para se reproduzir.

"O vírus não consegue se replicar sozinho porque tem um número muito pequeno de proteínas, por isso precisa assumir o controle das proteínas na célula humana", diz Beltrao.



Entre essas proteínas, existem várias que são essenciais, as chamadas enzimas quinases — capazes de realizar modificações em outras proteínas que já foram produzidas.

O vírus então assume o controle dessas enzimas para realizar modificações e regular a atividade da célula.

Ao alterar os padrões de proteínas celulares, o vírus pode promover sua propagação para outras células.

Os três mecanismos do vírus dentro da célula

Depois de mapear as modificações que o vírus provoca, os cientistas destacaram três comportamentos principais na célula infectada.

"Um desses comportamentos é a criação das protuberâncias, os longos tentáculos", enumera Pedro Beltrao à BBC News Mundo.

"Outro comportamento visto é que a célula para de se dividir em um determinado ponto do ciclo de divisão e acreditamos que isso favorece a replicação do vírus."

"E o terceiro comportamento que detectamos é um aumento na produção de citocinas, responsáveis pela resposta inflamatória. Acreditamos que este pode ser um dos fatores causando uma inflamação exagerada nos estágios avançados da covid-19", acrescenta o pesquisador.

Descobertas podem ajudar a encontrar tratamento

Outro avanço do estudo é a indicação de que medicamentos existentes e que podem ser bons candidatos para interromper o coronavírus. Esses tratamentos, muitos dos quais usados contra o câncer, parecem bloquear os sinais químicos que desencadeiam a formação dos tentáculos.

Regular as enzimas quinases também pode ser um mecanismo de ação chave em um eventual tratamento para a covid-19

Os cientistas testaram cerca de 70 medicamentos existentes e identificaram sete, principalmente tratamentos anticâncer e anti-inflamatórios, que demonstraram inibir a atividade da quinase.

Agora, os pesquisadores esperam iniciar ensaios clínicos para testar os tratamentos em humanos.

A equipe também comemora a colaboração internacional e a conquista rápida de descobertas.

"Para mim, pessoalmente, foi um projeto científico fantástico, porque não é todo dia que você pode trabalhar em conjunto com tantos pesquisadores brilhantes de diferentes partes do mundo", afirmou Pedro Beltrao à BBC News Mundo.

"Este é um projeto que, em outra época, levaria de três a cinco anos e foi concluído em três meses. Isso, para mim, foi algo incrível", acrescenta o cientista.

Reprodução: BBC 
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sexta-feira, 3 de julho de 2020

Macacos desenvolvem imunidade para coronavírus rapidamente, diz estudo

Pesquisa com cobaias apontou para a produção de anticorpos nos primatas em menos de um mês após a primeira exposição ao vírus.



Macacos expostos ao coronavírus Sars-Cov-2 conseguiram desenvolver imunidade em 28 dias, aponta um estudo chinês publicado nesta quinta-feira (2) pela revista científica "Science". Ainda é incerto para os pesquisadores como essa proteção se desenvolve em humanos e qual é seu tempo de duração.

Cientistas da Peking Union Medical College usaram macacos Rhesus como cobaias para o experimento com o vírus causador da Covid-19. A escolha dessa espécie de primata é comum para pesquisas por conta das suas semelhanças com o homem.

Durante o período do estudo, seis animais foram infectados por uma dose do Sars-CoV-2. Eles chegaram a desenvolver sintomas leves a moderados da doença e levaram cerca de duas semanas para se recuperar.

Depois de 28 dias, quatro dos seis macacos foram injetados novamente com o coronavírus, mas desta vez, não apresentaram sinais de uma reinfecção. Segundo o estudo, foi registrado apenas um leve aumento na temperatura corporal dos primatas.

Pico viral

Os cientistas coletaram amostras dos animais com bastante frequência durante o período da infecção, e perceberam que depois de três dias, os macacos tiveram um pico na concentração da carga viral.

Após a primeira infecção, as cobaias desenvolveram uma resposta imunológica mais resistente. O estudo cita a criação de anticorpos neutralizantes, que bloqueiam o vírus. Segundo os pesquisadores, é por isso que os primatas foram poupados de uma reinfecção a curto prazo.
Entretanto, os cientistas reconhecem a necessidade de mais estudos para avaliar o tempo de duração desta imunidade nos animais.

Imunes após a infecção

No mês passado, outras duas pesquisas atestaram que macacos Rhesus foram capazes de desenvolver imunidade após se recuperar da infecção pelo novo coronavírus. As pesquisas são um sinal de que vacinas contra a doença podem vir a ser efetivas.

Em um dos estudos publicados, nove macacos foram infectados com a Covid-19. Depois que eles melhoraram, os animais mais uma vez foram expostos ao vírus, mas não adoeceram.

Em um segundo estudo, outros 25 macacos foram testados com seis protótipos de vacinas para analisar se os anticorpos produzidos em resposta eram protetivos.
Eles infectaram esses animais e outros 10 macacos de um grupo de controle ao coronavírus que causa a Covid-19.

Todos os animais do grupo de controle demonstraram grande quantidade do vírus em seus narizes e pulmões, mas nos macacos vacinados, os pesquisadores identificaram um "grande grau de proteção". Oito dos animais vacinados ficaram completamente protegidos.

Esses estudos, que foram revisados, não provam que humanos desenvolvem imunidade ou o tempo que isso pode durar, mas ajudam a criar otimismo esse sentido.

Reprodução: G1
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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Atropelamentos em rodovias brasileiras ameaçam existência do tatu-canastra

De acordo com pesquisa, a maior parte dos acidentes acontece no Mato Grosso do Sul. Entenda por que a extinção dessa espécie é um risco para diversas outras



O tatu-canastra (Priodontes maximus) habita diversos biomas brasileiros: ele está na Amazônia, no Cerrado, no Pantanal e na Mata Atlântica. A espécie é conhecida como o "engenheiro das florestas" — o buraco de cinco metros de profundidade onde ele passa o dia todo é usado como proteção por outros animais durante a noite, quando o tatu-canastra sai da toca. Imagine, então, o impacto que a extinção desses animais pode provocar.

Infelizmente, esse não é um cenário impossível. O animal está classificado como vulnerável pela lista vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para Conservação da Natureza. Nas últimas três gerações, o declínio populacional foi de pelo menos 30%.

Isso se deve a diversos fatores: baixa taxa de natalidade, grande intervalo entre as gestações e... atropelamento em rodovias. É o que mostra um estudo publicado no início de maio na revista científica Biotropica, que contou com a participação de pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

A pesquisa, feita entre 2007 e 2020, registrou 24 atropelamentos em 12 rodovias do Brasil, nos biomas Cerrado, Pantanal e Amazônia. O Cerrado é onde mais acontecem os atropelamentos da espécie: 22 animais foram mortos nos últimos 14 anos. Só o estado de Mato Grosso do Sul teve 15 tatus-canastra atropelados nos últimos cinco anos. A rodovia monitorada na Mata Atlântica, por outro lado, não contabilizou acidentes envolvendo o bicho.

Para obter esses dados, foram usadas armadilhas fotográficas, que flagraram momentos de risco tanto para o tatu quanto para os motoristas.“Potencialmente, os mamíferos de grande porte, como o tatu-canastra, são os mais impactados nas rodovias, uma vez que se deslocam em grandes distâncias, o que aumenta a possibilidade de travessia [em rodovias] e, consequentemente, de atropelamentos”, explica um dos autores do estudo, Arnaud Desbiez, coordenador do projeto Tatu-Canastra, realizado pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e o Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS).

De acordo com o especialista, essa é a maior de todas as espécies de tatus: eles podem chegar a um metro e meio de comprimento e pesar mais de 50 quilos.

Uma possível solução para evitar atropelamentos desses e de outros animais seria a construção de passagens subterrâneas nas regiões de maior risco, por exemplo. “Essas estruturas podem tornar estradas e rodovias mais permeáveis, reduzir o risco do atropelamento dos tatus-canastra e estabelecer a conectividade entre as populações selvagens”, destaca Aureo Banhos, colaborador do estudo e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em comunicado divulgado à imprensa.

Reprodução: Revista Galileu
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sexta-feira, 26 de junho de 2020

O 'álibi científico' que pode inocentar os morcegos da pandemia de coronavírus

Os morcegos passaram por um momento particularmente difícil desde o surto de coronavírus. As pessoas que estudam e admiram esses animais defendem que deveríamos reconhecer seu papel vital na natureza.



Pensar sobre morcegos deixa Iroro Tanshi emocionada. "São obras de arte!", ela diz.

Tanshi, doutoranda nigeriana na Texas Tech University, nos Estados Unidos, está entre um grupo considerável de cientistas que desejam corrigir a imagem negativa dos morcegos — uma reputação que foi piorada pela possibilidade de eles terem sido parte do início da pandemia de coronavírus.

Relatos de matanças em massa de morcegos, da Austrália à Indonésia, alarmaram os conservacionistas em todo o mundo.

Eles explicam que culpar os morcegos, na verdade, deixa os verdadeiros culpados de fora.

Por que algumas pessoas culpam os morcegos?

As pessoas estão culpando os morcegos porque o vírus Sars-Cov2, que causa a covid-19, é 96% semelhante a outro vírus anteriormente detectado em morcegos selvagens, explica Tanshi.

Isso transformou todos os morcegos em suspeitos. Mas os morcegos têm um álibi científico.
"Pesquisas evolutivas recentes mostram que, cerca de 40 a 70 anos atrás, o vírus Sars-Cov2 se separou do vírus encontrado em morcegos-ferradura", diz Tanshi, "fornecendo mais evidências de que os morcegos podem não ter transmitido diretamente o vírus Sars-Cov2 aos seres humanos. "

Paul W. Webala, professor sênior de biologia da vida selvagem da Universidade Maasai Mara, no Quênia, concorda. "Em termos evolutivos, morcegos e humanos estão bem distantes um do outro e, portanto, se o SARS-CoV-2 realmente veio de morcegos, pode ter passado por algum hospedeiro intermediário."

Ou seja, se de fato os morcegos foram a origem do vírus, eles ainda não foram os que nos transmitiram. A suspeita recai sobre os pangolins como potenciais intermediários.

Então, quem é o 'culpado'?

Tanshi e seus colegas cientistas concordam enfaticamente que os humanos, e não os morcegos, são os culpados pelo atual surto e pela propagação do vírus.

Webala diz que a atividade humana criou a "tempestade perfeita" para a pandemia. "A invasão humana de habitats silvestres e a consequente perda e degradação deles, bem como o transporte, armazenamento e comércio de animais silvestres são atividades que criam condições ideais para a transmissão de patógenos entre espécies que não tiveram contato anterior."

"Várias evidências mostram que o risco de surtos zoonóticos (surtos de doenças que se originaram em animais, mas saltaram para os seres humanos) aumenta com a destruição do habitat", diz Tanshi.

Matar morcegos não nos protegerá do coronavírus. Pelo contrário, destruí-los em massa e deslocá-los de seus habitats poderia piorar a situação, apontam os conservacionistas.

"Cerca de 70% das mais de 14 mil espécies de morcegos são insetívoras, o que significa que se alimentam apenas de insetos e outros artrópodes", diz Webala.

"Muitos dos insetos aéreos e noturnos comidos por morcegos são vetores de patógenos relevantes para a saúde humana", diz ele. Em outras palavras, eles carregam doenças que afetam os seres humanos, incluindo dengue e malária.

Atacar e deslocar morcegos provavelmente aumenta o número de surtos de doenças.

Como os morcegos beneficiam seres humanos?

"Se você está vestindo algodão, se bebeu café ou chá, se comeu alimentos à base de milho ou um dos muitos alimentos agrícolas, seu dia já foi influenciado por morcegos", diz Webala.

Os morcegos fornecem serviços vitais para o ecossistema, como polinizadores, espalhadores de sementes e controladores de pragas. Tudo, de alimentos a cosméticos, móveis e remédios, exige atuação de morcegos.
Sem eles, a Indonésia não teria uma colheita bem-sucedida de durião, Madagascar perderia seus icônicos baobás e as plantações de macadâmia seriam devastadas.

"Os morcegos espalham mais que o dobro de sementes que os pássaros", diz Webala, "permitindo fluxo vital e reflorestamento de florestas fragmentadas nos trópicos".
Segundo vários estudos, apenas nos EUA, os morcegos representam uma economia de bilhões de dólares por ano em pesticidas e reduzem os danos às culturas.

O que mais torna os morcegos tão especiais?

"Os morcegos são animais surpreendentemente bem-sucedidos: são encontrados em todos os continentes, exceto na Antártica", diz Tanshi. "Como pesquisadora de morcegos, explorei cavernas, florestas, montanhas e savanas."

Os morcegos se destacaram na adaptação evolutiva, acrescenta ela.

"Dedos como asas, navegação por ecolocalização e visão estelar que lhes permitiu colonizar o céu noturno. Se ser mamífero é uma arte, os morcegos seriam obras-primas!"
Webala compartilha esse entusiasmo e apresenta um argumento pragmático para sua conservação.

"Os morcegos podem ter um ótimo sistema imunológico especialmente adaptado para tolerar patógenos e doenças. Essa notável resiliência poderia potencialmente gerar novas terapias para reforçar as defesas antivirais humanas."

Reprodução: G1
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quinta-feira, 25 de junho de 2020

Nuvem de gafanhotos avança e ameaça plantações no sul do Brasil


Uma nuvem de gafanhotos avança pela Argentina e pode atingir plantações do Rio Grande do Sul. O alerta foi emitido pelo Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Agro-Alimentar (Senasa) do país vizinho, que monitora o fenômeno desde maio. Segundo o órgão, os insetos surgiram no Paraguai, onde destruíram lavouras de milho e mandioca, e seguiram para a província de Santa Fé na quarta-feira (17); de lá, atravessaram o Rio Paraná, que abrange parte do Brasil, e foram rumo à cidade argentina de Corrientes.

O Senasa ressaltou que a nuvem de gafanhotos sobrevoou quase 100 quilômetros em 1 dia. Esse tipo de passagem é capaz de destruir uma pastagem equivalente ao que 2 mil vacas conseguem consumir no mesmo período.

Lavouras com risco de perda total

As nuvens de gafanhotos são geradas pela falta de inimigos naturais, provenientes do uso de químicos agrícolas, além de clima quente e seco. No Brasil, o fenômeno não ocorre há pelo menos três safras, sendo registrado por último em parte do Maranhão, onde não houve grandes estragos devido ao rápido aumento de umidade local.

Se a praga chegar em grande quantidade ao país, os danos podem ser severos, com possibilidade de perda total de plantações e pastagens. Isso poderia ocorrer sobretudo porque se trata de uma situação de difícil controle químico rápido pelos produtores.

Reprodução: Tecmundo
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domingo, 21 de junho de 2020

Novo modelo de embrião humano mostra uma fase nunca observada da vida

Pesquisadores europeus desenvolvem um molde artificial, mas produzido a partir de células-tronco, para estudar a evolução do feto com mais de 14 dias



Dizem que o momento mais importante da vida não é quando nascemos, nem quando morremos, nem quando nos casamos, e sim no dia que gastrulamos. Ninguém pode se lembrar dessa fase, porque acontece quando somos um embrião de 14 dias. As células-tronco quase idênticas do embrião começam a migrar daqui para ali e a formar um corpo. Se tudo correr bem, aos sete dias já se formou o plano geral do que será uma pessoa, com a semente de seus órgãos, inclusive um coração que logo começará a pulsar. A essa altura medimos um milímetro e meio, mais ou menos como a ponta de um lápis bem afiado.

Durante esse processo acontecem frequentes problemas que provocam malformações ou abortos naturais sem que os pais nem seus médicos tenham como saber o motivo. Apesar da sua máxima importância, a gastrulação humana jamais pôde ser observada enquanto ocorria. Um estudo publicado na quinta-feira fez isso pela primeira vez.

“Até agora não houve forma de entrar neste processo e sem ele não podemos entender como as células constroem um ser humano”, resume o biólogo espanhol Alfonso Martínez Árias, da Universidade de Cambridge (Reino Unido) e principal autor do estudo.

Quatorze dias é o tempo máximo durante o qual embriões humanos são cultivados fora do útero segundo a barreira legal imposta por muitos países, porque a partir desse ponto se pode falar que há um indivíduo: o embrião já não pode se dividir para formar duas pessoas (gêmeos). Depois disso se abre uma caixa-preta que só foi revelada no caso de ratos, macacos e outras espécies; muito úteis para entender o processo geral, mas sem serventia para revelar os detalhes específicos que definem um ser humano.

A equipe de Martínez colheu células-tronco de embriões humanos e as cultivou em laboratório acrescentando uma molécula que leva ao início repentino da formação de uma estrutura tridimensional viva. Passados três dias, surgiram a parte superior do corpo —mais avultada, com os precursores do coração, intestinos, músculos e ossos do tórax— e a inferior, menor. O modelo já contém os três grandes tipos de tecidos que são capazes de gerar todos os órgãos do corpo.

Em um estudo publicado nesta quinta-feira na revista Nature, a equipe demonstra que há mais de 1.000 genes que diferenciam a gastrulação humana da do camundongo. Também observam que a atividade genética em seus modelos embrionários artificiais é muito semelhante à que acontece em um embrião humano real de 18 a 21 dias. A caixa-preta da formação do mapa do corpo foi aberta, ainda que utilizando algo que basicamente não é um embrião humano.


“Estes modelos nos permitirão compreender por que acontecem muitos dos erros de programação que acabam em malformações, por exemplo da escoliose na coluna vertebral, ou em abortos, e inclusive nos permitirá testar novos medicamentos”, ressalta Martínez. Além disso, diz, evitam-se dilemas éticos.

Esses embriões artificiais não têm cérebro. Isso ocorre porque a molécula necessária para criá-los, chamada Chiron, inibe sua formação, de modo que não contém o germe do órgão capaz de pensar e sentir e que mais define o que é um humano. Tampouco estão presentes os tecidos que formariam a placenta que conecta o feto à sua mãe. “Mesmo que se tentasse implantar um destes embriões em um útero, nunca resultariam numa gravidez”, ressalta Martínez, que fez seu trabalho em colaboração com o Instituto Hubrecht (Países Baixos).

A pesquisa implica a criação não de um organoide, mas sim de uma semente capaz de simular um organismo inteiro com quase todos os seus órgãos

O estudo já aponta como começar a manipular esses embriões artificiais para verificar novas chaves da formação dos órgãos. Os pesquisadores veem, por exemplo, que aos três dias se formam blocos de tecido que vão aparecendo um após o outro para que o corpo cresça em comprimento para formar as costelas e a coluna vertebral —uma estrutura de crescimento “totalmente modular”—. O trabalho detalha duas moléculas que são capazes de interromper por completo o desenvolvimento do embrião ou de eliminar a formação do intestino e do coração.

A origem desta pesquisa remonta aos primórdios da fecundação in vitro, nos anos 70, e vai um passo além no uso de células-tronco. Até agora, elas serviam para gerar organoides como minicérebros ou minifígados adequados a testes de medicamentos ou para ensaiar modelos animais para transplantes em humanos. Essa pesquisa implica a criação não de um organoide, mas sim de uma semente capaz de simular um organismo inteiro com quase todos os seus órgãos.

Os responsáveis pelo trabalho só cultivaram esses embriões por quatro dias, mas acreditam que será possível ampliar esse prazo em uma ou duas semanas, embora não pretendam fazê-lo em curto prazo. “Não se trata de criar embriões, mas sim de aprender, e com este novo modelo temos um sistema para formular e responder a muitas perguntas”, explica Martínez.

“Os embriões desta idade se perdem nos abortos, por isso até agora não pudemos estudar a gastrulação”, explica Anna Veiga, que pesquisa embriões no Instituto de Pesquisa Biomédica de Bellvitge (Espanha). “Isto dará muitíssimas pistas sobre problemas no desenvolvimento humano”, ressalta.

Até agora, uma das maiores perguntas da biologia era como cada célula-tronco do embrião sabe aonde ir e o que fazer a partir dos 14 dias para começar a formar o organismo. Se as células-tronco são extraídas de um embrião humano, elas são capazes de se reproduzir continuamente —são imortais—, mas por si só nunca começarão o processo de formação de um organismo. Porém, se forem injetadas num embrião de camundongo, elas começam esse processo. Por quê? Este novo modelo “é um sistema tão elegante e tão simples que é muito chamativo e vai permitir saber o que acontece nesse início”, ressalta Ángel Raya, diretor do Centro de Medicina Regenerativa de Barcelona. O pesquisador acredita que se trata de uma descoberta tão fundamental que ainda não é possível prever suas “milhares de aplicações possíveis”, mas acrescenta que “oferecerá desde já um conhecimento que estará nos livros didáticos”.

Ainda resta um passo crucial para validar esse modelo, pois não se sabe até que ponto ele reflete a biologia de um embrião real. Para comprovar isso, seria preciso cultivar embriões além da linha vermelha dos 14 dias e compará-lo com os gastruloides

Durante a gastrulação acontecem muitos problemas na formação do embrião, provocados por 1.000 coisas, de razões congênitas a agressões externas como o álcool, os medicamentos, produtos químicos ou infecções que podem acabar em um aborto sem que os pais jamais saibam o porquê. “Um dos aspectos mais interessantes deste trabalho é que as células humanas embrionárias conseguem se organizar de forma autônoma, sem necessidade de se relacionarem com as células que formam a placenta”, ressalta a investigadora espanhola Marta Shahbazi, cuja equipe bateu em 2019 o recorde de cultivo de um embrião humano fora do útero: 13 dias, perto do limite de 14 estabelecido por lei no Reino Unido, onde ela trabalha.

O novo modelo não só “elimina as barreiras éticas aplicáveis aos embriões humanos” como também “nos permitirá estudar o embrião humano em um contexto único, sem as restrições da placenta de outros tecidos extraembrionários”, destaca. “É uma nova ferramenta muito poderosa para estudar os mecanismos moleculares de nosso desenvolvimento e nos ajudará a compreender por que alguns embriões não conseguem prosperar”, afirma.

Entretanto ainda resta um passo crucial para validar esse modelo, pois não se sabe até que ponto ele reflete a biologia de um embrião real. Para comprovar isso, seria preciso cultivar embriões humanos além da linha vermelha dos 14 dias e compará-lo com os gastruloides, explica o pesquisador Robin Lovell-Badge em entrevista ao Science Media Centre. Isto é impossível no Reino Unido e muitos outros países, porque as leis proíbem. “Se a lei mudasse, bastariam alguns poucos embriões humanos reais para validá-lo”, ressalta o cientista, um assunto tão polêmico que nem sequer os peritos neste campo se põem de acordo a respeito.

Reprodução: EL PAIS
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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Pesquisa indica que tipo sanguíneo interfere no risco de ter Covid-19

Pessoas com sangue tipo A seriam mais suscetíveis a ter a doença, e as com sangue O, menos. Mas autores ponderam: não é preciso desespero, muito menos abandono de cuidados



Um estudo publicado na quarta-feira (17) no New England Journal of Medicine diz que duas variações genéticas podem indicar quem tem maior risco de desenvolver quadros graves ou morrer por Covid-19. A pesquisa, liderada pela Universidade de Kiel, na Alemanha, corrobora um artigo publicado em março por cientistas chineses, no MedRxiv.

"Nossos dados genéticos confirmam que o grupo sanguíneo O está associado a um risco menor de adquirir Covid-19 do que os não-O", escreveram os pesquisadores na nova pesquisa. "Já o grupo sanguíneo A foi associado a um risco maior que os grupos sanguíneos não-A."

Os cientistas estudaram mais de 1980 pacientes espanhóis e italianos com infecções graves do novo coronavírus e os compararam a 2381 pessoas que não estavam doentes. Eles fizeram um teste de associação em todo o genoma, vasculhando o mapa genético dos voluntários em busca das duas variações de DNA mais comuns em pacientes com quadros serveros da Covid-19. "Confirmamos um potencial envolvimento do sistema de grupos sanguíneos ABO na Covid-19", escrevem os autores.

De acordo com os pesquisadores, as pessoas com sangue tipo A apresentaram um risco 45% maior de serem infectadas do que pessoas com outros tipos sanguíneos. Por outro lado, quem tem tipo sanguíneo O mostrou apenas 65% de probabilidade de se infectar com o novo coronavírus.

Como explicou Parameswar Hari, da Faculdade de Medicina de Wisconsin, nos Estados Unidos, à CBS News, o organismo de pessoas com tipo sanguíneo O tem mais chance de reconhecer proteínas "estranhas" — inclusive as que existem na superfícies de patógenos, como o novo coronavírus.

Outra questão importante é que os genes que controlam o tipo sanguíneo também afetam estruturas dos açúcares na superfície das células, o que poderia interferir na capacidade do vírus de infectá-las.

Mas os pesquisadores ressaltam queo estudo não deve desesperar quem tem sangue tipo A — e muito menos estimular quem tem tipo sanguíneo O a parar de se cuidar. "A diferença absoluta de risco é muito pequena", explicou Roy Silverstein, também da Faculdade de Medicina de Wisconsin, à CNN. "A redução de risco pode ser estatisticamente significativa, mas é uma pequena mudança no risco real. Você nunca diria a alguém do tipo O que ele tem menor risco de infecção."


Reprodução: Revista Galileu
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domingo, 14 de junho de 2020

Brasil foi responsável por um terço da perda de florestas virgens no mundo em 2019, diz relatório


De janeiro a dezembro de 2019, o Brasil perdeu cerca de 1.361.000 hectares (13.610 km²) de floresta tropical virgem — um terço do que foi perdido em todo o planeta, segundo um relatório do Global Forest Watch, organização que mantém uma plataforma online de monitoramento global de florestas. 

As florestas primárias, ou virgens, são aquelas que se encontram em seu estado original — não afetadas, ou afetadas o mínimo possível, pela ação humana. Por serem mais antigas, elas têm mais diversidade de espécies, armazenam mais carbono e são consideradas essenciais no combate à mudança climática.

Em 2019, segundo o novo relatório da Global Forest Watch, o mundo perdeu 3,8 milhões de hectares de florestas primárias tropicais — uma área quase do tamanho da Suíça, ou o equivalente a um campo de futebol a cada 6 segundos.

No Brasil, 95% da perda ocorreu na Amazônia, de acordo com a organização, que utiliza dados do monitoramento por satélite feito pela Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, em parceria com o Google, a Nasa e o Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Analistas do Global Forest Watch apontaram, como principais razões da perda, para o desmatamento por ação humana (criação de pastos, especulação de terra) e incêndios.


Em segundo e terceiro lugar, a República Democrática do Congo e a Indonésia tiveram pequenas reduções na área de floresta virgem que perderam no ano passado.

E a Bolívia chegou ao quarto lugar da lista, por causa dos incêndios que devastaram áreas de alta biodiversidade no país em agosto de 2019.

Incêndios foram 'sintoma' de desmatamento

As florestas tropicais virgens costumam ter espécies muito antigas de árvores, que armazenam mais carbono.

Segundo especialistas, elas podem levar centenas de anos para se recuperar. Isso se forem deixadas intocadas após processos de desmatamento ou de degradação — resultantes de eventos climáticos, como secas, ou da ação humana, como queimadas e corte de árvores — que podem deixar a floresta gradualmente mais vulnerável e incapaz de funcionar.


No entanto, ao contrário do que ocorreu na Bolívia, os incêndios no Brasil em 2019 não tiveram uma grande contribuição na perda de floresta virgem, segundo a analista da Global Forest Watch Mikaela Weisse.

"A maior parte dos incêndios que vimos no Brasil no ano passado não aconteceu nas florestas virgens, mas, sim, em áreas que já estavam desmatadas e que fazendeiros estavam preparando para o pasto e para a agricultura", disse à BBC News Brasil.

Segundo o órgão, as queimadas que chamaram a atenção do mundo a partir de agosto de 2019, "parecem ter sido um sintoma da perda de florestas primárias, mais do que uma causa direta".

"Na Amazônia, só 20% dos incêndios que observamos ocorreu em florestas ainda virgens, 30% ocorreu em áreas onde já havia acontecido perda de mata e os outros 50% aconteceram em áreas que já não tinham florestas ou onde a floresta era secundária (em processo de recuperação)."

As perdas brasileiras sinalizam uma expansão das fronteiras do desmatamento, que estão de acordo com o que cientistas do Brasil também estão observando, especialmente próximo a áreas de conservação e territórios indígenas.

"Desde 2013 vemos um aumento do ritmo da abertura da mata virgem. E nos últimos anos, especialmente, isso se acelerou", disse à BBC News Brasil o especialista em sensoriamento remoto Cláudio Almeida, coordenador do programa de monitoramento da Amazônia do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

"Mas também houve uma mudança. Lá na década de 80 o sujeito passava o correntão, derrubava as árvores e pronto. Nos últimos 10 anos ele vai degradando a área. Começa a tirar madeira em um ano, queima um pouco em outro. Só no final faz um corte raso e, por fim, queima tudo."

Na segunda metade de 2019, segundo Almeida, um cruzamento de dados feito por analistas do Inpe mostrou que entre os dez municípios com o maior número de queimadas, nove tinham também o maior número de alertas de desmatamento contabilizados no sistema Deter.

"Isso mostra que existe uma relação forte entre um e outro. O incêndio era o ponto final do processo de desmatamento. No período seco, a pessoa derruba a área, ela fica secando e em agosto, setembro, aquela biomassa é queimada."

Diferenças na medição.

O monitoramento de perda de floresta primária da Global Forest Watch detecta perturbações em trechos de mata maiores que 0,09 hectares (0,0009 km²), com vegetação a partir de 5 metros de altura, com causas que vão desde o corte seletivo de madeira até o fogo rasteiro.

Não há diferenciação entre os processos de desmatamento, que é como se considera o corte raso de um trecho de floresta, e de degradação.

Por isso, os números divulgados pelo órgão costumam ser diferentes dos dados obtidos pelo sistema Prodes, do Inpe, no Brasil.

Ambas as medições, no entanto, podem ser consideradas importantes, e até mesmo complementares, segundo Cláudio Almeida, do Inpe. "O Prodes é um sistema bastante preciso, mas só mede o final do processo, o desmatamento total de um trecho de floresta primária. Ao longo desse processo ocorrem vários estágios de degradação. Enquanto existe algum tipo cobertura florestal, o Prodes não pega", explica.

Isso significa que, em muitos casos, a perda de floresta virgem apontada pelo Global Forest Watch é ainda o início de um processo de desmatamento que o sistema brasileiro só vai contabilizar mais adiante.

O Prodes detecta, por imagens de satélite, áreas maiores que 6,25 hectares (0,0625 km²) em que houve desmatamento por corte raso. Os dados são contabilizados entre julho de um ano e agosto do ano seguinte. Já a Global Forest Watch contabiliza a perda de florestas entre janeiro e dezembro de um determinado ano.



Uma destas diferenças entre os dois sistemas pode ser observada nos dados de 2016 e 2017. A Global Forest Watch registra uma perda recorde de florestas virgens no Brasil, causada principalmente por incêndios em larga escala.

"Nesse caso, no entanto, eles eram de fogo rasteiro, que queima por debaixo das árvores e, muitas vezes, é menos visível para os satélites. E estavam mais relacionados à seca provocada pelo El Niño de 2015, uma das piores já registradas. E causaram degradação nas florestas", disse à BBC News Brasil o botânico Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e pesquisador da RAS (Rede Amazônia Sustentável).

O Prodes também mostra aumento do desmatamento nestes anos, mas não um pico tão grande. Em parte, por causa da diferença no período analisado e também porque nem todos aqueles trechos de floresta virgem que sofreram incêndios terminaram por ser completamente desmatados.

Desmatamento continua em tendência de aumento.

Os dados do Prodes mostram que, entre agosto de 2018 e julho de 2019, o Brasil perdeu 1,01 milhão de hectares (10,1 mil km²) de Amazônia, o maior volume dos últimos 11 anos.

Ainda não há números consolidados para o período seguinte, mas o Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (Deter), que emite os alertas de desmatamento e orienta as ações de fiscalização, mostra que entre agosto de 2019 e março de 2020, 507 mil hectares (5 mil km²) foram desmatados — quase o dobro do mesmo período no ano anterior.

Ambientalistas atribuem o aumento às políticas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que afirmou em algumas ocasiões que atividades como agricultura e mineração, inclusive em áreas protegidas e territórios indígenas, poderiam tirar a região da pobreza.

Em resposta a críticas dentro e fora do país após os incêndios em 2019, Bolsonaro autorizou o envio das Forças Armadas para combater os incêndios florestais na região, e criou o Conselho da Amazônia, coordenado pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão.


No entanto, um decreto recente do governo foi criticado por colocar as rédeas das ações de fiscalização e combate ao desmatamento nas mãos das Forças Armadas — tirando-as do Ibama, que passou a ser subordinado aos militares.

"Mandar o Exército parece contraintuitivo se você está deixando de financiar as agências ambientais que faziam bem o trabalho há tantos anos. Mandar o Exército parece uma medida de curto prazo pra ter impacto na mídia internacional, mas não parece algo que vá resolver o problema da degradação e do desmatamento na Amazônia", diz Jos Barlow, da Universidade de Lancaster.

O governo anunciou que, até o dia 21/05, "26 pessoas foram presas por delitos ambientais e outros crimes durante as ações do Exército, e que foram aplicadas multas no valor de R$ 8,7 milhões". Além disso, foram apreendidos motosserras, tratores, caminhões e embarcações.

O Exército, no entanto, descartou a destruição do equipamento apreendido, que críticos dizem ser uma sinalização de que o governo não estaria realmente disposto a combater as atividades ilegais.

Segundo o engenheiro agrônomo André Guimarães, diretor-executivo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), os dados indicam que o desmatamento deste ano vai superar o do ano anterior, mesmo com as ações do governo.

"No ano passado o governo começou a agir em outubro, no fim do ciclo de desmatamento. Esse ano, parece que começou a agir mais cedo, vamos ver se terá resultado", disse à BBC News Brasil.

"No ano passado, por conta da comoção com os incêndios, viu-se alguma ação de comando e controle que ajudou a baixar a taxa de desmatamento em outubro e novembro. Mas você precisa criar as condições para incentivar quem quer produzir sustentavelmente. Colocar o Exército na floresta ajuda, mas não é suficiente."

A reportagem questionou a vice-presidência sobre os planos para o desenvolvimento da região e sobre as críticas às ações de fiscalização, mas não recebeu resposta.

Reprodução: UOL
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